sexta-feira, 14 de junho de 2019

SEMELHANÇAS E DIVERGÊNCIAS ENTRE AS TEORIAS DE DOSTOIÉVSKI E NIETZSCHE



Dostoyevsky em 1876. | Fonte = Cartas para Amigos e Família,
Chatto Windus 1914 | Autor = desconhecido


File:Nietzsche187c.jpg
Friedrich Nietzsche por volta de 1869. Foto tirada
 no  estúdio Gebrüder Siebe, Leipzig.

























Uma breve  análise fundamentada nas aulas de Filosofia da Religião, ministradas pelo professor dr. Paulo Afonso de Araújo, durante o curso de graduação em Filosofia (UFJF, 2011)

Por Ana Idalina Carvalho Nunes*

          O objetivo deste breve estudo é traçar uma relação entre Dostoiévski e Nietzsche, apontando semelhanças e divergências no pensamento dos dois filósofos. Para dar início às reflexões é preciso levar em consideração o intenso caráter religioso da obra de Dostoiévski porque, quando se percebe a influência que a mística ortodoxa exerceu sobre ele, torna-se evidente que Raskólnikov, por exemplo, é um personagem criado para criticar o niilismo. Raskólnikov encontra-se com Deus justamente quando, numa tentativa niilista, sente a impossibilidade de saltar para o estágio de homem extraordinário. De acordo com o professor Paulo Afonso, no texto apresentado na aula 1 sobre Dostoiévski, duas verdades se apresentam nos romances de Dostoiévski: a primeira delas é que “o homem jamais, em qualquer circunstância, abdica do desejo de afirmar sua liberdade. A vontade jamais se submete totalmente à razão”. Para Dostoiévski, segundo o professor, a segunda verdade é:

          Não acreditar em Deus e na imortalidade da alma é estar condenado a viver num universo carente de sentido; as personagens de seus grandes romances que chegam à conclusão de que Deus não existe inevitavelmente se destroem, pois, ao assumir o tormento de uma vida sem esperança, tornam-se monstros em sua desgraça. A moral cristã do amor e do auto sacrifício é uma suprema necessidade, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade em geral. (Aula nº 1, pág. 10. Filosofia da Religião II, prof. Paulo Afonso). 

          De acordo com Dostoiévski, as formas exteriores da vida, o ser humano de carne e osso, o mundo empírico, não são realidades últimas; o mundo interior, espiritual, o destino do espírito humano – isso é o mais importante. Seus textos mostram com muita clareza os conflitos experimentados por Raskólnikov na sua tentativa niilista. Num intenso conflito, Dostoiévski, ao mesmo tempo em que considera o "homem-ideia" um tipo superior, mostra a fraqueza de seus personagens niilistas em seus romances, levando-os a sofrer terríveis dilacerações após cometerem seus crimes, mostrando-os como vítimas de delírios, de convulsões, tendo sua vida transformada num inferno. Raskolhnikov (Crime e Castigo) entrega-se à polícia e, durante o tempo em que fica preso, dá os primeiros passos para reencontrar-se com o cristianismo. Nikolai Stavroguin (Os demônios), depois de escrever uma confissão, suicida-se; e Ivan Karamazov (Os irmãos Karamázov), ateu, enlouquece, arrasado pelas consequências de um artigo que escrevera. O destino de seus personagens confirma a sua segunda verdade, de que a vida humana carece de sentido se o homem não acredita na existência de Deus. Por isso seus personagens perecem, enlouquecem, assumem “o tormento de uma vida sem esperança, tornam-se monstros em sua desgraça”.
          Nietzsche, tendo sido um grande o admirador de Dostoiévski, apresenta, em sua concepção de super-homem, uma grande semelhança com o "homem-ideia" do escritor russo - embora as conclusões das ideias do "super-homem" sejam totalmente opostas às do "homem-ideia" de Dostoiévski, conforme pode-se constatar em Assim falou Zaratustra. Na verdade, o "homem-deus" de Dostoiévski não traz o vigor do "super-homem" de Nietzsche. Ele mais se parece com o último homem: é um “adepto do ateísmo fácil” (aula 1). Ele não tem a crença na existência de Deus, mas – em contrapartida - permanece preso às categorias e ao sistema de avaliação, tornando-se ainda pior do que o homem que crê em Deus. Nietzsche não apresenta tormento algum ao niilista, em seu projeto de seguir até o fim sua ideia. Contrariamente, enaltece o super-homem que, em nome de sua causa, torna-se insensível – caminhando com altivez acima dos preceitos morais do seu tempo. Nietzsche enaltece o niilista, como aquele que caminha em direção ao ‘além do homem’; o niilista de Nietzsche não se detém diante de obstáculos na concretização dos seus objetivos, sejam eles quais forem. O "super-homem" de Nietzsche assume na totalidade todas as consequências de um mundo sem Deus, tirando disso as devidas conclusões morais. Defendendo a disseminação de ética inovadora, ele vive afastado das massas, sempre dedicado ao trabalho de impor uma atitude nova diante da vida. “O 'super-homem' de Nietzsche salta para o estágio de ser extraordinário e lá permanece. O niilista de Nietzsche enterra Deus”. 
          O niilismo, na obra de Dostoiévski, apresenta personagens que, pretendendo ser deuses, vivem atormentados pela culpa e pelo remorso; são personagens marcados pelo conflito, pela angústia. Como o leão, eles se rebelam contra Deus, afirmam o “eu quero” contra o “tu deves”, mas não têm força para criar e, desta forma, apresentam-se como niilistas passivos, vivem o anticristianismo. Nietzsche, pelo contrário, apresenta um "super-homem" que parte do  cristianismo. Segundo ele, para chegar ao “além do homem”, é preciso que o homem comece pelo estágio de camelo. O "super-homem" de Nietzsche tem que chegar a ser criança, isto é, tem que criar. 
          Desta forma, embora a ideia de "super-homem" de Nietzsche seja proveniente do "homem deus" de Dostoiévski, ele supera o primeiro. Ainda que ambos apresentem a temática do niilismo, divergem em alguns aspectos fundamentais: em primeiro lugar, Dostoiévski critica o niilismo, conforme podemos constatar no final do romance Crime e Castigo, quanto Raskólnikov percebe sua incapacidade humana de tentar estar acima do bem e do mal. Seu personagem descobre e aceita a existência de Deus, como um Ser acima dos homens. É possível dizer que Raskólnikov tentou superar o valor moral existente, quis estar acima do bem e do mal, por meio de um processo niilista. Mas esse processo acabou proporcionando um retorno a Raskólnikov, pois ele acaba voltando-se para Deus. Raskólnikov viu-se impossibilitado de tornar-se um homem superior e foi por meio do processo niilista que ele encontrou Deus. Por mais que Raskólnikov combata, a metafísica, ela está presente nele. Deus o encontrou e, através deste encontro, Raskólnikov obteve uma experiência religiosa profunda e existencial. O Deus que se apresenta a Raskólnikov é um Deus existencial. A aventura de Raskólnikov foi perceber que ele não tem nenhum fundamento, a não ser em Deus. 
          Nietzsche, ao contrário de Dostoiévski, aponta o niilismo como um caminho de superação e libertação da metafísica, ou pelo menos, como um desprendimento desnecessário dos valores morais e éticos vinculados à tradição cristã. Para Nietzsche, é preciso que o niilista aceite o caos, que aceite o nada que existe lá fora. Entretanto, se ele apenas negar tudo, mas não criar sentido para a vida, para o cotidiano, ele não passará de um ateísta fácil, de um anticristão. Para ser um niilista ativo, para chegar ao ‘além do homem’, ele precisa criar sentido, criar um Deus. Desta forma, o niilismo é libertador, e Dionísio é o deus que tem a ver com tal situação, é “o princípio secreto que guia nossa cultura desde seu início quando a unidade originária dionisíaca foi perdida” (aula 11, p. 145). Nietzsche aponta o caminho do niilismo como uma alternativa de liberdade para o ser humano. É possível a percepção de um movimento contrário entre Nietzsche e Dostoiévski no que se refere ao niilismo – Dostoiévski parte do niilismo e chega, através de seus personagens, à necessidade da existência de Deus. Nietzsche, pelo contrário, parte da fé metafísica, da crença no deus moral como ponto onde se originou a busca pela verdade – e chega no estágio de não precisar mais de Deus. Para Nietzsche, os fracos é que foram os responsáveis pelo desenvolvimento do espírito e da inteligência no homem, pela busca do conhecimento que leva ao nada. Enfim, para se aproximar do “além do homem” de Nietzsche, os personagens niilistas de Dostoiévski precisariam não mais se rebelar contra seu destino, deveriam encontrar uma harmonia autêntica – ou pagã – com a totalidade. Enquanto o niilismo de Dostoiévski leva à loucura e à morte, o niilismo de Nietzsche leva ao fortalecimento do homem, à criação de sentido para o mundo, através da aceitação da realidade e da condição humana. . 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ARAÚJO, Paulo Afonso de. Aulas de Filosofia da Religião II. Curso de Filosofia: Universidade Federal de Juiz de Fora, 2011. 

GOLIN, Luana Martins. O niilismo de Dostoiévski e Nietzsche. Revista Eletrônica Correlatio, n. 16, dezembro de 2009. Disponível em: http://www.metodista.br/ppc/ppc/correlatio . Acessada em 02/12/2011. 

OLIVEIRA, Cássia Costa. O niilismo russo e a saída de Dostoiévski para o problema. Revista Horizonte, Belo Horizonte, v. 9, n. 20, p.171-176, jan./mar. 2011. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte Acessada em: 30/11/2011. OLIVEIRA, Rita de Cássia. Considerações sobre o niilismo em Nietzsche. Revista em Foco em Educação e Filosofia, Maranhão, vol. I, p. 56-65. Disponível em: http://www.educacaoefilosofia.uema.br/ Acessada em 02/12/2011.

* Cursei bacharelado e licenciatura em Filosofia pela UFJF (2010-2012), especialização em Filosofia, cultura e sociedade (UFJF, 2013-2014) e mestrado em Ciências Sociais (UFJF, 2015-2017)

ATENÇÃO: 
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quarta-feira, 12 de junho de 2019

ANÁLISE DE DOIS TEXTOS DE JEAN-PAUL SARTRE: “O OLHAR” e “EM-SI E PARA-SI: ESBOÇOS METAFÍSICOS "

Por Ana Idalina Carvalho Nunes*  

Ficheiro: Flickr - Gabinete de Imprensa do Governo (GPO) - Jean Paul Sartre e Simone De Beauvoir recebidos por Avraham Shlonsky e Leah Goldberg.jpg
O filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre e a escritora Simone De Beauvoir chegando a Israel e acolhidos por Avraham Shlonsky e Leah Goldberg no aeroporto de Lod (14/03/1967). Autor da foto: Miylner, Moše, fotógrafo israelense.  Fonte: Wikimedia Commons. 
          
         No estudo desses últimos textos do livro “O ser e o nada”, de Jean-Paul Sartre, é possível penetrar ainda mais fundo em seu pensamento e vivenciar o seu teor na prática deste século XXI. Segundo o filósofo, no início do primeiro texto em questão, intitulado “O olhar”, no momento em que eu tomo consciência da presença do outro, não existe mais uma separação entre ele e mim; e isto acontece porque, ao ver o outro, minha visão acende uma luz de alerta, captando o outro como um objeto estranho ao eu. Para exemplificar, Sartre cita um jardim onde temos a grama, as cadeiras etc, Nesta situação, podemos distinguir o olhar em três momentos: primeiramente o homem como um integrante da paisagem - onde é concebido como objeto que pode ser retirado do contexto; em seguida, existe o homem em relação com a paisagem, uma relação que escapa dele, ele não pode ser retirado, mas não tenho relação real com ele, ele é, ao mesmo tempo, objeto e sujeito; por último temos o homem em relação a mim, onde ele passa de objeto a sujeito.Tem início, então, um reconhecimento prévio das intenções do outro a meu respeito: “Porque perceber é olhar, e captar um olhar não é apreender um objeto no mundo, mas tomar consciência de ser visto” (p. 333). Assim, a partir do momento em que sofro o impacto de saber que sou percebida pelo outro, eu deixo de ser eu - e passo a existir perante o outro e o mundo, ou seja, “a aparição do outro faz surgir na situação um aspecto não desejado por mim, do qual não sou dono e que me escapa por princípio, posto que é para o outro” (p.341). 
          Sartre lança luz sobre verdades e receios que estão contidos na revelação do outro quando “ele” nos percebe. Em outras palavras, Sartre mostra que o eu é o ser revelado ao outro, captado pela consciência deste outro – o que reflete de diversas formas o eu que está diante do olhar plural do outro. O eu e o outro são apenas um caleidoscópio onde tudo gira muito rápido. Por um segundo, o eu tem plena consciência do outro e é neste momento que se faz um silêncio quase insuportável, porque o eu e o outro estão paralisados um diante do outro, tentando compreender a dimensão da descoberta. Desta maneira, quando a consciência do eu se funde com a consciência do outro, as duas consciências estão se avaliando simultaneamente, reconhecendo a si mesmas em si e no outro. Esta conscientização mútua produz uma visão distanciada e distorcida: isso causa sensações de grande conflito tanto no eu como no outro. A revelação do eu diante do outro traz a constatação de que a presença do outro é uma totalidade estendida do eu - e a partir dessa completude, o eu e o outro se encontram na condição de uma compartilhada intimidade que causa um grande mal-estar (por ser forçada), já que o outro enxerga as entranhas do eu. Conforme diz Sartre “Pelo olhar do outro eu vivo fixado no meio do mundo, em perigo, como irremediável. Mas não sei qual meu ser, nem qual meu sítio no mundo, nem qual a face que esse mundo onde sou se volta para o outro”. (p.345). A liberdade do eu e do outro está, desta maneira, comprometida com a presença inquietante e perturbadora e com o perigo iminente de uma descoberta não permitida, mas invadida de tal forma que chega a ser sufocante. 
          A realidade subjetiva que a própria liberdade do eu e do outro fornecem, demarcam o espaço da liberdade de cada um. Quando o eu e o outro tomam consciência disso, passa a existir um elo sutil entre eles, que faz com que a existência de ambos dependa deles mesmos. Eles se descobrem e não têm como negar tal descoberta: estão visíveis, com total consciência da existência de um e de outro. Há então uma negação imediata recíproca entre o “eu” e o “outro” e, como estes não têm como se negarem a si mesmos, ficam se colidindo entre si - é a partir desse momento que ambos se refletem um no outro. 
          Para Sartre, a consciência se deflagra para o mundo, a consciência é o ser consciente do mundo: ela existe e está no mundo como um ser entre outros seres, é a aparição de si rumo ao mundo. Ela é o objeto intencional revelado, é o desprendimento do eu. Depois de ter visto e percebido outro, é impossível sair ileso. Essa descoberta é marcada pelo conflito que leva o homem ao conhecimento de si mesmo diante do outro e do conhecimento do outro. Durante a avaliação de reconhecimento do “eu” e do “outro”, ambos estão se autovaliando e tentando manipular os seus sentimentos e suas intenções diante do objeto estranho. Há uma negação instantânea de ambos, pois não querem que invadam sua “intimidade”; é então que começam a dissimular as suas intenções diante do objeto estranho, moldam as suas intenções de acordo com a análise que o outro faz de si. O ”eu”, embora sempre faça tentativas de evitar o “outro”, está sempre diante dele porque, a partir do momento em que o “eu” descobre o “outro” , torna-se impossível fugir. O eu e o outro precisam um do outro para existir – é impossível a existência do eu sem a existência do outro. Também não é mais possível que o eu e o outro se neguem mutuamente, já que estão frente a frente, expostos a um mundo real e fatídico, onde o eu se materializa diante do outro. O outro se torna, então, o meu inferno, porque me enxergo diante dele e passamos a ter conflitos por não querermos ser vistos nem descobertos. Assim são criadas as “máscaras” de dissimulação para que o verdadeiro eu fique escondido – através da manipulação de intenções, da ocultação dos sentimentos, do movimento constante do eu, exercendo seu papel de omitir-se diante do outro, de esconder-se - para não deixar que o outro conheça suas fraquezas, a fragilidade do “eu”. Passando agora para a questão do ‘em-si’ e do ‘para-si’, é importante destacar que Sartre insiste na tese de que a síntese entre o ‘em-si’ e o ‘para-si’, ainda que seja impossível, “é sempre indicada”(p. 759). O hiato que é mantido entre os dois modos de ser torna impossível a síntese, pois ele impede a dissolução de um no outro - e a consequência desta ambiguidade é a repetição do fracasso do ‘para-si’. Passamos a notar, então, que a totalidade ‘em-si-para-si’ é sempre posta, porém, também sempre desagregada. Percebe-se que a divergência, antes presente no ser da consciência, agora é identificada também neste ser que surgiria como a síntese entre os dois modos de ser. O ser ‘em-si-para-si’ existe somente como o ideal do ‘para-si’. Este ser projetado e negado, ao mesmo tempo, surge como a ambiguidade que caracteriza o ser ideal do ‘para-si’. Ambiguidade que está na raiz do ser do valor. Este ser que é pretendido, mas que é recusado, este ser ideal nada mais é do que a totalidade destotalizada, identificada agora, no ser, não só no ‘para-si’ ou na relação entre o ‘para-si’ com outrem. Se podemos estabelecer a relação entre a consciência e o ‘em-si’, esta somente se dá como captação que o primeiro termo faz do segundo. O ser “é aquele que é captado” (p. 761). Se admitimos que a consciência estabelece uma relação com o ‘em-si’, a questão da totalidade pode ter um lugar, pois, de alguma forma, sou “(...) ao mesmo tempo consciência do ser e consciência (de) mim” (p. 761). Entretanto, Sartre estabelece que o modo como a totalidade pode ser explicitada não pertence ao setor da ontologia, levando em consideração que temos somente dois modos concretos de ser: o ‘em-si’ e a consciência, sendo o terceiro modo, aquele que funciona como o ideal da consciência, o ‘em-si-para-si’. O estabelecimento da realidade desta idealidade não pode ser discutido pela ontologia sartreana e, sendo assim, a resposta ao modo como a totalidade pode ser dada encontra lugar apenas na metafísica. Neste sentido, a ontologia sartreana encontra o seu limite. De acordo com Sartre, este problema pertence ao setor da metafísica porque qualquer ato humano estabelece, de alguma forma, a relação da consciência com o ser. E se a consciência é o fator de instauração de uma ação possível no mundo, ela também é a afirmação de uma idealidade correspondente, já que sempre visa à eliminação de suas carências, a ultrapassagem de sua falta essencial. Isto pode ser admitido porque o valor é “(...) a falta em relação à qual o Para-si determina a si mesmo em seu ser como falta” (p. 763). E se é assim, encontramos na relação entre a consciência e o ser o sentido do valor. Com o valor notamos que a ação humana visa a superar a falta, que nada mais é do que o preenchimento da lacuna, do hiato encontrado em seu próprio ser. É na identificação deste valor ideal das ações humanas Sartre centraliza o surgimento da tarefa da metafísica. Somente ela poderá determinar o sentido específico desta idealidade. Mas, se não devemos somente visar ao aspecto material da ação, mas o seu lado ideal, isto exige que o ‘espírito de seriedade’ seja negado. Tal constatação se impõe porque, para Sartre, esta postura, além de eliminar a subjetividade da transcendência dos valores, transfere “[...] o caráter de ‘desejável’ da estrutura ontológica das coisas para sua simples constituição material” (p. 763). Para ele, o que está por trás desta renúncia ao ‘espírito de seriedade’ é a necessidade de manutenção dos ‘valores simbólicos’ do mundo. Se o ‘espírito de seriedade’ procura obscurecer (...) todos os seus objetivos para livrar-se da angústia” (p. 764), a metafísica deve avaliar se este ato é desejável. Se o mundo é uma ‘exigência muda’, o ato que se limita a esta exigência também acaba por ser uma obediência a esta determinação. Assim, agir de má-fé significa negar a idealidade, aniquilar o valor. No plano rigoroso da materialidade, todos os fins são equivalentes e somente a ação humana que visa a um ideal transcendente pode valorar o mundo. É neste contexto que Sartre pergunta: quem será o agente moral? Aquele que age de má-fé ou aquele que enfrenta a liberdade e a angústia? É por isso que o problema do valor põe em discussão o sentido que deve ter a liberdade para a postura metafísica , questionando se a liberdade passaria a ser o fundamento do valor, ou se - mantendo a transcendência - se colocaria o valor em outra instância. E são estas questões, exatamente tais questionamentos que apontam para a função que a metafísica poderia desempenhar, principalmente a de responder aos problemas que a ontologia não tem condições de fazê-lo. A partir dessa constatação, leva à crença de que não é possível encontrar uma solução possível para o problema da síntese ‘em-si-para-si’ nos dados postos somente pela ontologia sartreana. 

 Trabalho da disciplina de Antropologia Filosófica III apresentado ao professor Juarez Sofiste pela aluna Ana Idalina Carvalho Nunes, durante o curso de graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, novembro/2011. 

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terça-feira, 11 de junho de 2019

A EDUCAÇÃO, A FAMÍLIA E A MULHER, NA VISÃO DOS FILÓSOFOS CLÁSSICOS GREGOS

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Penélope e os pretendentes, John William Waterhouse, 1912 – Foto: Wikimedia Commons
Trabalho da disciplina de Seminário de Temas Filosóficos, apresentado pela aluna Ana Idalina Carvalho Nunes ao professor Mário José dos Santos, como requisito parcial para a obtenção do bacharelado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) no ano de 2011. 

RESUMO 

          O presente artigo pretende refletir sobre o modelo grego de educação implantado por Sócrates, Platão e Aristóteles, abrindo parênteses para o papel da mulher como educadora dentro da família e para o olhar filosófico sobre a sua contribuição dentro da sociedade grega. 

Palavras-chave: Educação. Filosofia. Mulher. 

 1.  UM OLHAR GERAL SOBRE A PÓLIS 

          Esse estudo traz uma reflexão acerca do entendimento grego de educação, bem como sobre a contribuição da mulher como educadora e como cidadã grega. Como base para a pesquisa, foi consultada a obra dos filósofos clássicos, Sócrates, Platão e Aristóteles, filósofos que colocaram a educação como eixo central para a construção de uma sociedade justa e de uma melhor formação humana. O objetivo da presente pesquisa é apresentar as raízes da educação que hoje se faz no Brasil, o papel da família e da mulher no contexto educacional da época, ressaltando a atualidade do pensamento dos filósofos clássicos gregos. 
          A filosofia nasceu do espanto dos seres humanos com as coisas que os rodeavam e com a ordem do universo. Assim, no seu início, a pergunta central que os filósofos se faziam era: Como explicar o universo? Como poderia explicar-se que o cosmos era o resultado do caos, da desorganização? Como acontecera a organização e o ordenamento de tudo o que existe? Levando em conta o tipo de questionamento que movia tais filósofos, eles foram chamados de cosmólogos ou físicos. A cosmologia pensava a natureza e o universo em que tudo era ordenado e ligado harmonicamente. Foi apenas com o surgimento dos sofistas, que a filosofia grega começou a dar um enfoque na perspectiva humana. Sabemos, por exemplo, que os sofistas foram educadores profissionais. Eles traziam teorias sobre o sentido e o valor de educar, ainda que seus principais escritos não tenham chegado até nós (Platão, Hípias Maior 282b-c). Os filósofos gregos do período clássico deram, de forma quase unânime, importância singular à educação; foi com Sócrates, Platão e Aristóteles, na proporção em que o espanto com o caos do universo passou a um segundo plano, que surgiu o espanto diante da desorganização da sociedade. As questões passaram então a ser outras: “Por que o homem vive um caos? Como ordenar o mundo humano? Naquele momento, a filosofia passou a se envolver com o estudo e com a crítica daquela realidade, buscando um ideal de uma sociedade, justa e também utópica. A Apologia de Sócrates apresenta, com clareza, a crítica socrático-platônica à pólis grega. Sócrates diz que existe, naquela sociedade, uma grande contradição entre o homem justo e a prática política, e que nenhum homem justo consegue permanecer vivo, se decidir se dedicar e tratar dos negócios públicos. De acordo com Sócrates, a política ateniense está em contradição com a justiça e esse é 6 o motivo por que transforma a esfera política em uma luta de interesses, onde os valores da verdade e da moralidade são ignorados e perdem a sua objetividade. 
          A práxis pedagógica da filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles traz a fundamentação da ciência em benefício da política e das instituições públicas e - a um mesmo tempo - a base firme que sustenta esta política e estas instituições é também a educação. Para os filósofos clássicos gregos, a educação se apresenta como a mediação entre teoria e prática e, a partir dessa mediação, é que a formação humana e a construção da justiça social são capazes de solucionar o problema de uma sociedade e de uma política degeneradas. A educação é, assim, o meio pelo qual a sociedade política pode construir justiça social e realizar a melhor formação humana. Segundo Aristóteles, quando a sociedade se descuida da educação dos jovens, esta sociedade torna-se, no futuro, vulnerável aos problemas provenientes desse erro. Platão insiste, em A República, que a educação dos jovens é a questão central da sociedade política e não admite o paradigma educacional proposto pelos gregos, que não está baseado em um ideal de perfeição e de orientação à juventude. Segundo Platão, somente através da educação é que torna-se possível formar os homens para a construção de justiça na sociedade. A partir disso, conclui-se que a educação é a questão principal para a sociedade política. 

2. A MULHER E A EDUCAÇÃO DAS CRIANÇAS EM SÓCRATES E PLATÃO 

          Como uma das primeiras precauções que se deve tomar na educação das crianças, Sócrates recomenda que sejam escolhidos, com muita diligência, os relatos de fábulas inspiradas por musas que as crianças costumam escutar desde a mais tenra idade. A preocupação tem sua justificativa no que se refere ao ato de educar: selecionando os relatos que as crianças vão ouvir, se pode permitir apenas, diz “Sócrates”, os relatos que contenham as opiniões que os construtores da pólis julgam convenientes para formar as crianças. Não se deve permiti que sejam narradas às crianças, por exemplo, as principais fábulas que têm sido utilizadas para educar todos os gregos, os poemas de Homero e Hesíodo, uma vez que afirmam valores contrários àqueles desejados como predominantes na nova pólis. Segundo Sócrates, esses relatos, cheios de mentiras, não representam os deuses e heróis com clareza, e estão povoados de personagens que pregam valores  inversos àqueles com os quais se pretende educar os guardiões. Desta forma, o que se pretende é eliminar a injustiça da pólis, diz “Sócrates”, e para isso é necessário mudar os textos com os quais se tem educado sempre na Grécia. E antes de discutir para escolher os relatos que substituirão os tradicionais, Sócrates afirma que se deverá ser extremamente cuidadoso na escolha dos textos com os quais as crianças entrarão em contato em primeiro lugar. Ele dá a seguinte razão: 

“E bem sabes que o princípio de toda a obra é o principal, especialmente nos mais pequenos e ternos; porque é então quando se forma e imprime o tipo que alguém quer disseminar em cada pessoa. (A república II 377a-b). Os primeiros momentos são os mais importantes na vida, diz “Sócrates”. Por isso não se permitirá que as crianças escutem os relatos que contêm mentiras, opiniões e valores contrários aos que se espera deles no futuro. Porque se se pensa a vida como uma sequência em desenvolvimento, como um devir progressivo, como um fruto que resultará das sementes plantadas, tudo o que venha depois dependerá desses primeiros passos. As marcas que se recebem na mais tenra idade são “imodificáveis e incorrigíveis” (378e). Por isso deve-se cuidar especificamente desses primeiros traços, por sua importância extraordinária para conduzir alguém para a virtude (ibidem). 

          A proposta de Sócrates é a de que a educação aplicada na formação dos guardiões seja a mesma que se aplica para educar os gregos: a ginástica para o corpo, a música para a alma (376e). As crianças devem ser educadas, em primeiro lugar na música e, logo depois, na ginástica. A educação deve se iniciar na infância, pois é nessa fase que se imprime o caráter desejado para uma pessoa, quando esta se tornar adulta. Além da ginástica e da música, o currículo que constituía a verdadeira Paidéia platônica incluía algumas ciências, como afirma o filósofo: 

[...] desde crianças [...] devem aplicar-se à ciência do cálculo, da geometria e a todos os estudos que hão-de preceder o da dialéctica, fazendo que não sigam contra- feitos este plano de aprendizado.[...] quem é livre não deve aprender ciência alguma como uma escravatura. E que os esforços físicos, praticados à força, não causam mal algum ao corpo, ao passo que na alma não permanece nada que tenha entrado pela violência. [...] Por conseguinte, [...] não eduques as crianças no estudo pela violência,mas a brincar, a fim de ficares mais habilitado a descobrir as tendências naturais de cada um (A República Cf. Id. Ibid., 536 d - 537 a) 

          Em muitos dos primeiros diálogos de Platão, Sócrates conversa com jovens; ele afirma, na Apologia, que - para ele - é a mesma coisa conversar com pessoas de diversas idades (33a). No entanto, Platão não destinou – nos projetos educativos de A República e de As Leis nenhum lugar especial para o diálogo filosófico com jovens. Ao invés disso, em A República, Platão propõe apresentar impedimento para que os jovens não tenham contato com a dialética. Platão afirma que, aos guardiões, desde a infância, devem ser ensinados cálculo, geometria e toda a educação propedêutica. E que essa primeira educação da alma deve ser lúdica, espalhada entre os jogos - e não forçada, pois nenhum saber permanece nela por força. Completados os 30 anos, alguns serão escolhidos, entre os mais aptos, para serem postos em contato com a dialética; mas não sem antes adverti-los dos perigos dela, já que os jovens de Atenas têm como hábito utilizá-la como um jogo, de forma leviana, apenas para contradizer, sem acreditar firmemente em ideia alguma, desacreditando-se a si mesmos e à filosofia. 
          Toda a descrição da educação superior dos guardiões, que se inicia na infância, é uma maneira antecipada do que é apresentado no livro VII, em A República, na alegoria da caverna. Platão supõe que alguns homens habitavam numa caverna apenas com uma entrada para a luz, e eles viviam acorrentados desde a infância, de forma que não podiam mover-se, eram obrigados a permanecer no mesmo lugar. Só conseguiam observar algumas sombras de transeuntes refletidas pela luz de uma fogueira que queimava a distância. Se, por um acaso, um dos prisioneiros conseguisse soltar-se e ascendesse à entrada da caverna, certamente estranharia a luz e sentiria dor nos olhos. Maior impacto sentiria ao contemplar o Sol. Pois bem, se o prisioneiro, que conseguiu sair da caverna, resolvesse voltar à mesma para tentar convencer os outros de que o que veem no seu recinto são apenas sombras, provavelmente, causaria risos; e, se conseguissem soltar-se, não o matariam? Ressalte-se, porém, que a finalidade do filósofo da Academia mediante a imagem da caverna é pôr em evidência a formação do homem. Platão está tentando resgatar a pólis grega, e isso só é possível através de uma educação adequada. Para ele, a educação não é o pensam que é. 

A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão [olhos], não a de o fazer obter a visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele não está a posição correcta e não olha para onde deve, dar-lhes os meios para isso.( A República, 518d.) 

          O prisioneiro da caverna é, então, o homem no estado de ignorância, é o que não olha na direção correta. Como inferir, a partir da imagem do mito da caverna, uma educação reformadora em Platão? A experiência do prisioneiro na caverna mostra o que significa um processo educativo capaz de levar o homem à sua verdadeira condição. A educação é justamente essa atitude de forçar o homem a subir degraus sempre mais altos. Por isso, o prisioneiro, ao sair da caverna, ou melhor, ao deixar o estado de ignorância, poderia sentir dor, e o deslumbramento fatalmente iria impedi-lo de olhar fixamente os objetos que ele via apenas em sombra no passado. Desta maneira, resgatar o prisioneiro da caverna seria formá-lo para viver na sociedade. Deve-se observar que para Platão a educação é um processo que dá consciência social aos membros da comunidade, ensinando-os a responder a todas as demandas da vida coletiva. Porém, para realizar tal finalidade, o processo educativo, além de ser sucessivo, é muito longo, e não deve terminar com o início da vida adulta, deve ser uma sequência de estágios que todos possam ser capazes de percorrer. É imprescindível ainda destacar que esta formação inclui não só a instrução, mas também a educação no sentido moral, nos termos que, perceber a cidade organizada num sentido macro, significa também construir, em sentido micro, o Estado dentro de cada um. 

3. A EDUCAÇÃO E A FAMÍLIA EM ARISTÓTELES 

          Quanto a Aristóteles, o que se sabe de seu pensamento acerca da educação está nos seus textos Ética a Nicômaco e Política. No primeiro livro, Aristóteles fala dos princípios da educação dos cidadãos e menciona o ensino particular; na Política, desenvolve mais a sua teoria, examinando mais demoradamente o ensino dos jovens, dando ênfase no ensino público para todos. Aristóteles pode ser considerado o médico da educação, por ter tido a necessidade de formular uma teoria de caráter fisiopedagógico, de maneira metódica e profunda, mostrando-se mais realista do que Platão, seu mestre. De maneira contrária a Platão, Aristóteles especificou e concretizou a noção de felicidade como objetivo principal de sua teoria política e pedagógica. Em Aristóteles, o valor pedagógico da contemplação da virtude torna-se um habito que supera o racionalismo socrático; e a virtude, quando associada às noções do fazer e do agir, é uma das noções mais fundamentais da educação no âmbito de uma pedagogia ativa, o que ainda nos dias de hoje constitui o objetivo principal da reflexão pedagógica. 
          A família desempenha um papel considerável na educação dos filhos, segundo Aristóteles. Na Ética a Nicômaco, o filósofo se refere à educação familiar e privada, lançando um questionamento acerca do tipo de formação que a educação deve proporcionar: se ela deve visar apenas a formação de homens de bem ou se deve constituir um objeto de funcionamento político. 
          Para Aristóteles, a educação privada e familiar devem depender do ensino público e para todos, que deve ter a seu cargo a educação – em sua finalidade geral e também no que se refere à criação do programa de estudos. O Estado, com a ajuda dos pais, deve tentar obter a realização do bem político por intermédio da educação familiar, privada e pública. A educação familiar é imprescindível: o pai representa a fonte de vida para os filhos, aquele que garante o alimento e a formação educacional. A mãe, ao lado do pai, proporcionam a afeição e o amor incondicional aos filhos, considerando-os como a sua continuidade natural. Assim, o filho é visto pela família como um indivíduo, e esse filho recebe da família cuidados minuciosos e especiais – de forma contrária à educação pública, que apenas traçará o quadro geral dos conhecimentos que ele deverá adquirir. Se o legislador pretender que os corpos das crianças sejam melhores, desde o princípio de suas vidas, ele deve se ocupar da união conjugal e definir em que época da vida a pessoa deve se casar, como também deve determinar a pessoa com quem se deve casar, analisando o tempo que essas pessoas viverão e passarão juntas para o resto de suas vidas, também cuidando do aspecto da diferença de idade entre pais e filhos (para não haver uma longa distância de idade entre eles, ou – o contrário – para que a idade de pais e filhos não seja pequena demais, o que prejudicaria a relação de respeito e obediência dos filhos para com os pais). Aristóteles diz que é possível determinar o estado físico dos filhos que vão nascer através de uma medida preventiva que estabelece como limite de idade para a capacidade de procriar, setenta anos para os homens, e cinquenta anos para as mulheres. Segundo ele, a idade ideal para a mulher se casar é de dezoito anos e para os homens esta idade é de trinta e sete anos (ou menos). Fala ainda do momento em que a união deve acontecer, quando se tem o objetivo de produzir cidadãos biologicamente saudáveis: no inverno. Aristóteles também faz reflexões médico-pedagógicas no que concerne às mulheres grávidas: elas devem cuidar de seus corpos, fazer ginástica e alimentar-se adequadamente, além de procurar ter um dia-a-dia calmo, para garantir que a criança cresça saudável em todos os aspectos: físico e emocional. 
           Cabe ao legislador, segundo Aristóteles, tomar conhecimento de que as crianças, logo depois de nascidas, têm na alimentação rica um ingrediente fundamental na formação de corpos robustos. Para o filósofo, a iniciação progressiva das crianças no conhecimento é considerada da mais alta importância. Não se deve, definitivamente, segundo Aristóteles, impor algo a crianças com idade igual ou menor a cinco anos, não se deve utilizar a força para induzi-las a alguma atitude, como também não se deve submetê-las a exercícios pesados, pois isso atrapalha o desenvolvimento de seus corpos. O que se deve fazer é acostumar seus corpos ao movimento, afastando-os da preguiça e, para conseguir isso, o legislador deve promover o jogo dentro de uma programação familiar correta e sadia. Aristóteles, como também Platão, considera o jogo de alta importância na iniciação de crianças na vida política do Estado. 
          De acordo com o filósofo, os períodos de instrução, segundo a idade, são: 

          ➢ 1º período - procriação/período pré-natal (0 a 9 meses);      
         ➢ 2º período – nutrição 
                                - bebê: até a idade de 01 ano; 
                                - pequena infância: criança de 02 até 05 anos; 
                                - primeira infância: criança de 05 a 07 anos 
          ➢ 3º período - educação 
                                - infância: idade de 07 a 14 anos; 
                                - Adolescência: idade de 1 a 21 anos; 
          ➢ 4º período - maioridade - a partir dos 21 anos. 

           Enfim, pode-se dizer que Aristóteles foi um grande incentivados da educação liberal – mas esta educação estava ao alcance apenas dos cidadãos livres, o que restringe essa educação aos homens apenas. No que se refere à educação das mulheres, ele nada esclarece, embora dê indícios de que aprecia a contribuição das mulheres dentro das famílias e também na vida da pólis. 

4. QUEM ERA A MULHER GREGA NO PERÍODO CLÁSSICO DA FILOSOFIA? 

           Ao realizar um resgate histórico da presença das mulheres na história da filosofia, percebe-se que a figura do feminino é discutida por meio de um sujeito que não é o que a representa, mas sim outro sujeito: o sujeito masculino. Mesmo assim, este discurso é sempre evitado no campo filosófico. Os escritos de Platão remetem à necessidade de inclusão da mulher no funcionamento da pólis. Para o filósofo, a mulher deve receber a mesma educação ministrada ao homem, qual seja, o ensino da música, ginástica e também da guerra. A cidade idealizada por Platão responsabiliza a mulher pelo
 funcionamento da pólis, e ainda garante ao sexo feminino a igualdade de condições na organização social, política e econômica da cidade-estado. As idéias de Platão sobre o aproveitamento do potencial feminino demonstram a preocupação do filósofo em manter a independência da pólis, principalmente com relação aos que exigiam grandes quantias por seus serviços na defesa da cidade. Note-se que a cidade-estado grega do século IV sofre com a perda constante de seus cidadãos nas guerras. Os resultados aparecem nas dificuldades políticas tanto internas quanto externas, agravadas pela falta de dinheiro. Platão mostra-se preocupado com a escassez de cidadãos, e a solução encontrada pelo filósofo é fazer com que homens e mulheres partilhem o dever de zelar pelo funcionamento da cidade-estado. No pensamento platônico, as mulheres gregas devem ser educadas nas mesmas condições que os homens, “terem em comum as habitações e as refeições, sem que tenham qualquer propriedade privada, estarão juntos, e, ficando misturados, quer nos ginásios, quer no resto da sua educação, creio que por uma necessidade natural serão compelidos a unirem-se entre si”. As palavras do filósofo demonstram a separação social dos espaços dedicados ao homem e à mulher. E acrescenta que “é preciso que os homens superiores se encontrem com as mulheres superiores o maior número de vezes possível, e inversamente, os inferiores com as inferiores, e que se crie a descendência daqueles, e a destes não”. Platão pretende a formação de uma elite governante, gerada a partir de famílias especiais que respondam pela produção de governantes. 
          A cidade de Aristóteles segue as leis da natureza, o homem une-se à mulher, obedecendo as regras naturais da reprodução; um não pode existir sem o outro, pois deve haver a continuidade de ambos os gêneros. A superioridade do cidadão do sexo masculino lhe confere a autoridade suprema sobre os demais membros da sociedade. Aristóteles vê, na convivência entre a comunidade das mulheres e a comunidade dos homens, um dos elementos de tensão dentro da sociedade. A solução para o impasse encontra-se na educação das mulheres e dos filhos segundo a forma de Governo, Aristóteles lembra que as mulheres constituem a metade das pessoas livres da cidade, portanto, uma cidade que não controla suas mulheres tem meia cidade fora do domínio das leis. A lei é, assim, a substância espiritual comum da sociedade, expressa sob forma concreta, atuando como força coesiva e reúne o poder soberano da sociedade comandada por homens cidadãos socialmente aceitos. 

6. MULHER, FAMÍLIA E EDUCAÇÃO: DA GRÉCIA CLÁSSICA AOS DIAS DE HOJE 

          Embora muito se fale do papel irrelevante e do menosprezo com que se refere à mulher na filosofia grega clássica, é possível afirmar com segurança que tal opinião não se baseia numa visão abrangente, que considere o contexto histórico e os diversos aspectos da representação feminina dentro da sociedade. A importância da mulher grega estava fundamentada no desempenho de seu feminino papel de estruturar emocionalmente a família, cuidando da educação dos filhos e administrando o lar. Comparando a contribuição da mulher grega com a contribuição que o homem grego oferecia à pólis, pode-se conseguir respostas diferentes, que dependem do ponto de vista com que se analisa a questão. Sob o ponto de vista masculino, o papel da mulher pode parecer, realmente, menor: é o homem quem toma as decisões, quem tem voz perante o Estado; enquanto a autoridade da mulher se restringe ao lar, que é um mundo limitado a alguns metros quadrados, com uma voz ouvida apenas pelos filhos e, de forma inexpressiva, pelo marido. Entretanto, sob o ponto de vista pedagógico, a mulher tem nas mãos não só o destino dos filhos, como também o controle do homem – através de uma dominação sutil, silenciosa e eficaz. A maior diferença entre o homem e a mulher não está escrita em leis,  não se restringe a direitos e deveres – a diferença maior está na estrutura emocional, psicológica e mesmo física, e não há como mudar isso. Uma orquestra só existe em função da diversidade de instrumentos – uns maiores, com som mais forte; outros menores, com som mais delicado. Mas é na combinação dos sons desses variados instrumentos que a orquestra consiste, é na aceitação dos papéis variados e no respeito a cada um em especial, que se consegue a harmonia. É claro que, tanto em Sócrates e Platão como em Aristóteles, a mulher é considerada menos importante do que o homem, mas isso ainda acontece nos dias de hoje, depois da mulher ter conquistado o direito à cidadania, ocupando altos cargos políticos e movendo a economia do mundo através do seu trabalho. 
          No aspecto pedagógico, embora a educação pública para todos tenha se tornado uma realidade, a desagregação do núcleo familiar - fenômeno do século XXI, como também o pensamento racionalista, acabaram deturpando o conceito de educação semeado no período clássico da filosofia grega. Não há mais um legislador a intervir no núcleo familiar para garantir que as crianças nascidas venham a ser cidadãos garantidores de uma “sociedade ideal” . Nos dias atuais, a Constituição da República garante, através do parágrafo 7º do artigo 226, que “a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.” 

§ 7º - Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. (Constituição do Brasil) .

          Assim, o legislador não mais influencia na formação familiar, como na pólis grega. A constituição garante a liberdade de cada cidadão planejar sua família, e o Estado os ampara, oferecendo os recursos para garantir a educação e a saúde dos filhos. Não obstante aos direitos adquiridos, entretanto, os homens se desviam de seus deveres e desamparam as crianças, levando a sociedade a viver o caos que se pode assistir hoje em toda parte, bastando ligar a televisão ou acessar a internet para tomar conhecimento de um mundo que deixa a todos inseguros e temerosos do futuro. A ideia de Aristóteles de dar início à educação e à formação do homem antes mesmo de seu nascimento – dentro do útero materno, prestando atenção até mesmo nos relatos que as crianças em tenra idade ouviam, educando através da música e da ginástica, preocupando-se em manter o corpo das crianças e jovens em movimento para não predispor os mesmos à preguiça – todas essas precauções, embora trouxessem o inconveniente da intervenção do Estado na organização familiar, consistiam num planejamento consciente de uma educação que não estava restrita ao espaço escolar, tampouco aos ensinamentos gerais que tinham por objetivo preparar o jovem para atuar politicamente na pólis. A educação tinha um sentido mais amplo, e o papel da família era fundamental nesse aspecto. 
          Talvez a falência da educação atual tenha uma das principais causas no esfacelamento da estrutura familiar. A falta de planejamento familiar, o exercício precoce da sexualidade entre os jovens, aliados a uma ausência de Deus – que leva à divinização de símbolos materiais - são outros tantos fatores que contribuem para a ineficácia do sistema educacional na atualidade. O que se pode fazer para que a educação prepare os jovens de hoje para a formação de uma sociedade justa? Entendendo que a história vem sendo construída e escrita pelos homens ao longo dos séculos, talvez seja preciso, para responder a esta questão, que os homens aprendam a dividir o poder com a mulher, talvez seja preciso que os homens aprendam a ouvir a mulher e, acima de tudo, que percebam que a idéia de superioridade e inferioridade é apenas manifestação de uma tola vaidade. Para o perfeito funcionamento da máquina que move o mundo, cada peça é importante e indispensável. Qualquer valoração de relevância da individualidade é utópica e denota a ignorância de uma mentalidade que não tem mais espaço num século em que “parceria” é a palavra de ordem.  

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ARISTÓTELES. Política. Tradução, Introdução e Notas de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora da UNB, 1997. 

______. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2003.

DANNER, Leno Francisco. “Pensando sobre educação e política: Sócrates, Platão e Aristóteles, ou sobre as bases da educação ocidental – Uma contribuição para o caso brasileiro”. In:______. SABERES.Revista de Filosofia e Educação, Natal – RN, v. 2, n.5, ago. 2010.Disponível em:< http://www.cchla.ufrn.br/saberes> Acessado em: 05/07/2011.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. tradução de Jean de Melville. São Paulo: Martin Claret, 2006. 

______. A República. Tradução de Leonel Vallandro. Rio de Janeiro: Editora Globo, [s. d.]. ______. As leis. 


Para fazer o download do artigo completo em PDF, com todas as notas de rodapé e formatação original, acesse o site: 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

INFORMATIVO PAPO CABEÇA: a política, na visão de estudantes do ensino médio

Equipe editorial do Informativo Papo Cabeça: à esquerda do aluno Pablo Gouvêa: Vitória (acima), Lisa e Vanessa, Maria Júlia (embaixo). Lado direito do aluno Pablo Gouvêa: Mariana (acima), Luíza e Beatriz.

          Estudantes do 3º ano do ensino médio do Colégio Soberano (Cataguases-MG) promoveram o lançamento, no mês de julho último, do Informativo Papo Cabeça, que tem como objetivo colocar à disposição de outros estudantes uma gama de informações que possam levar à reflexão sobre o tema "Política", estudado na disciplina de Filosofia durante o  primeiro e segundo bimestres, sob a fundamentação do livro didático "Pensar filosoficamente", de autoria da professora Ana Idalina Carvalho Nunes. O livro traz uma abordagem da política na visão de filósofos, desde o período clássico grego até o século XX, colocando em cena as ideias políticas de Platão, Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Montesquieu, Adam Smith e Karl Marx.  
        Beatriz Bayonetta, Lisa Borges, Luiza Freitas Loures de Oliveira, Maria Júlia Raváglia, Mariana Moraes, Pablo Gouvêa, Vanessa  Azevedo Garcia e Vitória Meneguery tomaram a iniciativa de produzir artigos que, reunidos, resultaram na publicação do informativo e lançamento na escola, durante um evento que foi denominado como "Intervalo Filosófico", que teve a participação de todos os estudantes do ensino médio da escola, bem como de professores, professoras e da diretora Vera Nilce Aguiar, da coordenadora Roseli Mendonça, além de outros membros da direção.  
           

EDITORIAL

                                                                                            Por Luiza Freitas Loures de Oliveira


      O tema abordado neste primeiro número do informativo “Papo Cabeça” tem como objetivo conscientizar as pessoas sobre o voto, dando a elas informações para que possam eleger um bom candidato nas eleições, através de discussões e esclarecimentos sobre os partidos políticos. São, ao todo, seis pequenos artigos que discutem a política brasileira. 
      O primeiro artigo demonstra como a participação política através das redes sociais aumentou, devido ao grande avanço tecnológico, tendo uma maior participação dos indivíduos, marcada pela liberdade de expressão. O segundo artigo apresenta a caracterização das posições partidárias, demonstrando os “rótulos” dados a pessoas que possuem opiniões e posicionamentos opostos em relação à política no Brasil, designados como “coxinhas” e “mortadelas”. Quem é quem na política brasileira? Es-ta é a pergunta que o artigo procura responder. Já o terceiro artigo apresenta caminhos para identificar mentiras políticas que são veiculadas pelas redes sociais, as chamadas “fake news”, falsas verdades que são divulgadas, causando transtornos que representam um grande perigo para a democracia brasileira. O artigo alerta para a importância de identificar a má intenção por trás de uma verdade simplista e aceitável pelos que têm pouca informação e formação. O quarto artigo apresenta as diferenças entre o capitalismo e o socialismo, a fim de levar leitores e leitoras a tirarem suas próprias conclusões e a escolherem o caminho que consideram mais adequado para a nossa política. 
      Por fim, os dois últimos artigos alertam para a importância de se preparar para uma boa escolha nas eleições e falam da importância de se escolher com consciência os deputados e senadores no período das eleições. Também contribuem para que os leitores consigam se situar nesse contexto e aprendam a reconhecer a importância dos vários posicionamentos ideológicos e políticos para a construção de uma democracia correta.
      Nós, da equipe editorial, preparamos todo esse material acreditando que ele poderá trazer grande contribuição para nossos leitores e leitoras, servindo como base para a análise imparcial das situações políticas vivenciadas em nosso país. Boa leitura!

                             OPINIÃO                                      

                                                                                                                Por Pablo Gouvêa    
  
      A política no Brasil foi e continua sendo  um  tema  muito  pautado, talvez por sempre ter sido marcada por grandes escândalos. O informativo "Papo Cabeça", feito pelos alunos do terceiro ano do Colégio Soberano (Cataguases /MG), traz aqui o seu primeiro número sob o tema "Política", com o objetivo de levar leitores e leitoras, sejam adolescentes ou adultos, a uma reflexão sobre a política brasileira e à conscientização da importância em levar a sério o direito de selecionar aqueles que vão nos representar e trazer soluções para o Brasil.
      Como aluno e integrante do grupo que produziu o informativo, embora tenha atuado como relações públicas da equipe, acabei me envolvendo muito com a produção do informativo e li, antes da publicação, todos os artigos. Dentre todos, me chamou a atenção em especial o artigo da Maria Júlia Raváglia, "Coxinhas e mortadelas: quem é quem na política brasileira?" e também gostei muito do artigo "Quais as diferenças entre capitalismo e socialismo?", escrito pela colega Vitória Meneguery. Mas todos os artigos são muito importantes e abordam assuntos que estão sempre presentes nas redes sociais e podem nos ajudar a assumir um posicionamento diante das postagens que vemos diariamente e que, muitas vezes, não sabemos se são verdadeiras ou se são apenas "fake news". 
      Com a distribuição do informativo entre  os  estudantes  e  professores  eu  espero  que  os  alunos leiam e busquem o aprendizado cada vez mais nesses temas que são sempre falados, e que aprendam a debater saudavelmente, qualificadamente,  buscando  sempre  compartilhar o conhecimento com os amigos a fim de que possamos espalhar um conhecimento bem fundamentado.










sábado, 7 de abril de 2018

HOMENAGEM PÓSTUMA AO PROF. MÁRIO JOSÉ DOS SANTOS

     Por Ana Idalina Carvalho Nunes
                                       Foto  de 2010, no ICH antigo da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. 
 Prof. Mário José, Catarina, Idalina, Belzinha, Ana Paula, Bia, Stella e Luciana.

Recebi há pouco a notícia de que partiu, professor Mário. De princípio, emudeci, foi como se morresse também a temporalidade e até os pássaros se calaram. Olhei para o céu: estava azul intenso, todo enfeitado de nuvens brancas, arredondadas. Agora, passadas algumas horas, as lágrimas se atrevem a descer do meu rosto, não lágrimas de dor, mas de gratidão, de reconhecimento,  de uma emoção suave e uma espécie de conforto por saber que estará bem, seja como for depois da morte. Lembrei de todas as vezes que subi de carona com você naquele fusquinha amarelo, você sempre passava por volta de 7:50 pela Olegário Maciel. Íamos conversando e, quando chegávamos no ICH antigo, você parava o carro antes para entregar a marmita do "Costela". Você amava o Costela e ele te amava. Aliás, professor Mário, me diga (talvez ainda não consiga dizer, talvez nada disso faça mais sentido pra você agora): quem conseguiria conviver com você sem amá-lo? 

Semana passada estive no ICH novo e quis subir ao quarto andar do bloco C pra rever a sala que ocupou depois que fomos para o prédio novo. Professor Mário, está exatamente como a deixou! Nada saiu do lugar, até a sua coleção de corujas continua na estante! A sua sala era o nosso ponto de encontro, íamos à coordenação, na maioria das vezes, só pra te ver e dizer bom dia. O seu jeito formal era a embalagem de um homem tão nobre e tão bom! 

Lembro de quando, já no quinto período de Filosofia, eu passei por uma grande dificuldade financeira, que colocava em risco até mesmo a minha permanência no curso, já que me deslocava semanalmente da minha cidade de Cataguases para estudar em Juiz de Fora. Confidenciei isso a você e conseguiu pra mim uma bolsa de assistente da coordenação. Mais do que a ajuda financeira que me permitiu concluir o curso, a sua atitude me mostrou o grande amigo que estava ali diante de mim.

Professor Mário, quando recebi a notícia de sua partida, através do professor Luciano Camerino, me vieram à mente as suas aulas, especialmente "A apologia de Sócrates", na parte final, onde ele fala sobre a morte. Reproduzo abaixo, como homenagem a você, uma pequena passagem daquele texto,  grande mestre e amigo. Saiba que você é imortal,  para sempre. Você não foi só um professor e coordenador, você foi verdadeiramente o nosso Mestre, aquele que apontou o caminho, aquele cuja humildade o coloca entre os grandes filósofos.  A Belzinha, que estava aí nessa foto, foi antes de você e, se ela tinha tanta pressa, é porque deve ter algo de muito bom depois da morte, porque ela era alegre e gostava de viver com prazer. 

Vá em paz, professor. Você estará sempre vivo em cada um de nós. Espero, sinceramente, que ao encontrar Sócrates e os outros aí, envie o meu abraço de admiração. 

Apologia de Sócrates
Capítulo XIX
[...] Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para um outro. Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte seria um maravilhoso presente. Creio que, se alguém escolhesse a noite na qual tivesse dormido sem ter nenhum sonho, e comparasse essa noite às outras noites e dias de sua vida e tivesse de dizer quantos dias e noites na sua vida havia vivido melhor, e mais docemente do que naquela noite, creio que não somente qualquer indivíduo, mas até um grande rei acharia fácil escolher a esse respeito, lamentando todos os outros dias e noites. Assim, se a morte é isso, eu por mim a considero um presente, porquanto, desse modo, todo o tempo se resume a uma única noite. Se, ao contrário, a morte é como uma passagem deste para outro lugar, e, se é verdade o que se diz que lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir, ó juízes, maior do que este? Porque, se chegarmos ao Hades, libertando-nos destes que se vangloriam serem juízes, havemos de encontrar os verdadeiros juízes, os quais nos diria que fazem justiça acolá: Monos e Radamante, Éaco e Triptolemo, e tantos outros deuses e semideuses que foram justos na vida; seria então essa viagem uma viagem de se fazer pouco caso? Que preço não serieis capazes de pagar, para conversar com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim especialmente. a conversação acolá seria maravilhosa, quando eu encontrasse Palamedes e Ajax Telamônio e qualquer um dos antigos mortos por injusto julgamento. E não seria sem deleite, me parece, confrontar o meu com os seus casos, e, o que é melhor, passar o tempo examinando e confrontando os de lá com cá, os últimos dos quais tem a pretensão de conhecer a sabedoria dos outros, e acreditam ser sábios e não são. A que preço, ó juízes, não se consentiria em examinar aquele que guiou o grande exército a Tróia, Ulisses, Sísifo, ou infinitos outros? Isso constituiria inefável felicidade. Com certeza aqueles de lá mandam a morte por isso, porque além do mais, são mais felizes do que os de cá, mesmo porque são imortais, se é que o que se diz é verdade 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

PENSAR FILOSOFICAMENTE - uma metodologia para as aulas de Filosofia no ensino médio


A ideia de produzir o livro didático "Pensar filosoficamente" surgiu da minha inquietude diante do ensino da filosofia na educação básica.  A partir de uma  análise atenciosa do material didático disponível no mercado editorial, percebi que tratava-se de um  apanhado de livros que privilegiavam a história da Filosofia, deixando de focar na questão da formação e desenvolvimento do pensamento filosófico entre os jovens. Dessa forma, iniciei o ano de 2018 pensando em meus alunos e alunas: passei alguns dias refletindo sobre seus anseios, sobre a expectativa de seus  pais e também sobre a proposta pedagógica da escola.  Principalmente em se tratando de filosofia, é preciso ter ética na atuação profissional  e  oferecer conhecimentos que possam vir a contribuir para a vida dos jovens aprendizes.

Pensei no quanto alguns alunos se mantêm focados no sucesso que desejam ter no ENEM e quis muito encontrar um meio de contribuir mais eficazmente para o alcance da aprovação no referido exame. Pensei também nos que ainda não se sentem prontos para  iniciar a vida acadêmica e preferem adiar uma escolha profissional. Por fim,  quis  dar atenção aos que  sentem alguma dificuldade em assimilar o conhecimento oferecido, apesar de quererem muito o seu espaço no mundo profissional e  acadêmico.  Assim, diante dessa diversidade de anseios, decidi  desenvolver uma metodologia que pudesse atender a todos de forma satisfatória. E, para chegar a um plano de curso, me lancei numa pesquisa para delimitar conteúdos que estivessem dentro das questões abordadas no ENEM, mas que pudessem, além disso, levar os alunos a desenvolverem a argumentação lógica, tornando-se capacitados tanto para analisar quanto para construir o discurso. Afinal, levar  o aluno a se apropriar do discurso e a adquirir domínio sobre ele é tornar possível a sua integração no mundo em todos os aspectos. Foi a partir desse raciocínio que delimitei, como fio condutor do livro didático "Pensar filosoficamente" a questão  do discurso, da argumentação, da retórica, da dialética.

Assim, partindo da mitologia grega e da compreensão do mito como forma de conhecimento que perdura até os dias atuais, explicando de forma mágica os fenômenos desconhecidos que nos assustam, o livro cria uma ponte entre passado e presente, buscando, através da contextualização, levar os alunos a compreenderem todo o processo de construção do conhecimento científico, a partir da passagem do mito ao logos.  A primeira das três partes do livro aborda a busca da origem do mundo e das coisas pelos pré-socráticos, tratando também da  retórica sofista e da dialética socrática. As atividades propostas para a sala de aula são dinâmicas e propõem a utilização de vídeos e música  como provocadores para a "investigação dialógica", conceito proposto pelo prof. Dr. Juarez Gomes Sofiste (UFJF), em seu livro "Sócrates e o ensino da filosofia" (Vozes, 2007).

A segunda parte do livro propõe  o ensino da Lógica, numa abordagem que promove uma interdisciplinaridade com a Matemática,  Língua Portuguesa, Redação e Ciências Sociais e, de maneira mais indireta,  com outras áreas de conhecimento. A obra traz a lógica dedutiva e indutiva, apresentando inúmeras atividades da lógica proposicional, lógica dos predicados, análise e construção de argumentos lógicos, teoria e prática na aplicação do raciocínio indutivo na pesquisa científica.

A terceira e última parte da obra se dedica à fundamentação teórica de temas filosóficos contemporâneos, levando os aprendizes à compreensão mais aprofundada de questões que estão presentes em discussões nas redes sociais e nos noticiários, buscando ainda abordar a filosofia atual e os temas que despertam o interesse dos filósofos contemporâneos.

Os objetivos da obra são:
1.  levar os alunos a uma apropriação dos conceitos filosóficos e à compreensão da forma como se dá a produção de conhecimento científico;
2. Contribuir para que alunos e alunas aprendam a analisar argumentos e a compreender enunciados e discursos ou textos, através da estruturação lógica do raciocínio;
3. Levar os aprendizes a se tornarem capazes de dialogar e apresentar argumentos  consistentes para fundamentar seus posicionamentos;
4. Desenvolver nos aprendizes a capacidade de estruturar logicamente o raciocínio, apresentando argumentação válida, na produção do texto escrito;
5. Levar alunos a alunas a desenvolverem a retórica.
6. Oferecer conhecimentos que levem o aluno à aprovação no ENEM (dando ênfase à análise e produção de argumentos e do discurso, deixando em segundo plano a questão do conteudismo) 

Alcançados esses objetivos, poder-se-á afirmar que as aulas de Filosofia terão cumprido seu papel de promover a formação do pensamento filosófico, melhorando a qualidade da comunicação entre os alunos e alunas e contribuindo para um bom desenvolvimento em todas as disciplinas escolares.
E, compreendendo que a boa comunicação é um fator que contribui de forma eficaz para o pertencimento social, tornar-se-á também  possível afirmar que a metodologia apresentada pelo livro  contribui para a formação de cidadãos melhores e mais bem sucedidos. 

Prof. Mª. Ana Idalina Carvalho Nunes
Mestra em Ciências Sociais, especialista em Filosofia, Cultura e Sociedade, bacharela e licenciada em Filosofia (todos os cursos pela UFJF). Escritora.
Saiba mais sobre a autora:

Observação: a título de desenvolvimento da metodologia criada, o livro estará disponível apenas para alunos e alunas do Colégio Soberano em 2018, onde será realizado o projeto. Em 2019 o livro será disponibilizado para venda em nível nacional. 

Colégio Soberano: http://www.colegiosoberano.com/

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A PRISÃO E O SISTEMA PUNITIVO: uma breve retrospectiva histórica


SORTEIO DO LIVRO "CRIMINALIZAR PARA PUNIR"
Para participar, siga os 3 passos abaixo:

1. Cutra o vídeo no canal Youtube.
2. Compartilhe o vídeo.
3. Marque três amigos ou amigas como comentário no Facebook  https://www.facebook.com/idalinacarvalhonunes/
O sorteio ocorrerá no próximo domingo, dia 26/11, às 18 horas, AO VIVO.
Boa sorte!

ANTROPOLOGIA - SOBRE A OBRA "OS RITOS DE PASSAGEM", DE ARNOLD VAN GENNEP

Foto de 1920. Autor desconhecido.  Fonte:    http://www. intermedi a. uio.no/ariadne/Kulturhistorie/bilder/arnold-van-gennep        ...