quinta-feira, 17 de setembro de 2015

MAURICE MERLEAU-PONTY

FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO
Resumo dos dois primeiros capítulos do livro, por Ana Idalina Carvalho Nunes


CAPÍTULO I

O CORPO COMO OBJETO E A FISIOLOGIA MECANICISTA

O capítulo I da “Fenomenologia da Percepção”, de Merleau-Ponty, intitulado O corpo como objeto e a fisiologia mecanicista, está centrado na tese de que o corpo é objeto e nem a fisiologia, nem a psicologia, dão conta de entendê-lo. O filósofo dá início à sua apresentação definindo o corpo-objeto como um corpo no qual os sentidos são partes independentes que não se relacionam entre si, sendo também os dados captados por esses mesmos sentidos, qualidades independentes e isoladas umas das outras. Segundo Ponty, cada sentido corresponde a um órgão e para responder aos estímulos do mundo, o que os sentidos fazem é apenas emitir uma reação mecânica.

Entretanto, entender o corpo como partes extra partes traz um grande problema pois, considerando-se que a captação é feita pelas partes, caso o conduto neural fosse lesionado a pessoa perderia os dados sensoriais. E isso não acontece, de acordo com a afirmação do próprio Merleau-Ponty, na página 112: “as lesões dos centros e até mesmo dos condutos não se traduzem pela perda de certas qualidades sensíveis ou de certos dados sensoriais, mas por uma diferenciação da função.” Segundo Merleu-Ponty, os dados não são perdidos, o que se perde é a maneira pela o corpo responde ao mundo que é distorcida. E ele exemplifica com clareza a afirmação, apresentando o caso do paciente com lesões centrais, que passa a perceber as cores de forma diferente. O que acontece nesse caso, de acordo com Ponty, é que as lesões decompõem a sensibilidade do doente, afetando a organização da percepção. E neste ponto observa-se uma espécie de integração funcional dos sentidos corporais, o que afasta, pelo menos num primeiro momento, a ideia de um corpo partes extra partes, pois aponta para uma percepção do mundo que necessita da participação de um corpo que é responsável pelo desdobramento dos dados sensoriais dentro de Uma percepção efetiva – e não numa resposta linear a um estímulo qualquer. Em outras palavras, a partir do momento em que percebo o mundo exterior, recebo dele os estímulos e passo a ter consciência do corpo. A alma então, se espalha pelo corpo e isso gera o comportamento.

Merleau-Ponty vai fundo neste problema, discutindo os casos de pacientes que apresentam situações de membro fantasma e de anosognose. Ele, escolhendo esses casos para apresentar, tem o objetivo de mostrar que tais distúrbios não encontram explicação plausível nem da fisiologia, nem da psicologia. Em ambas, as explicações conduzem mais a equívocos do que a soluções. No caso do membro fantasma, o paciente, captando dados dos sentidos, sente no coto a presença de um braço que não existe mais em seu corpo. A fisiologia não consegue chegar a um diagnóstico definitivo sobre casos de membro fantasma, mas se levarmos tal situação para o campo da psicologia, teremos ainda menos sucesso, pois chegaremos às mesmas dificuldades do mecanicismo e da causalidade linear. Não somente um ferimento ou uma mutilação, “uma emoção, uma circunstância que relembre as do ferimento fazem aparecer um membro fantasma em pacientes que não o tinham.” Então, relacionar o membro fantasma apenas a fenômenos somáticos é enxergar somente uma das faces do fenômeno do corpo, ignorando sua complexidade; mas introduzi-lo no campo do psiquismo e da subjetividade acabam levando a experiência corporal para um plano ambíguo, no qual a aplicação de categorias é problemática.

O mesmo acontece na situação da anosognose, moléstia em que o doente não possui, aparentemente, nenhum defeito físico, mas ignora uma das partes de seu corpo, como um braço ou uma perna, que nele é parcialmente insensível, que ele chega a relatar uma “serpente longa e fria” atada ao seu corpo. Enquanto, no caso dos mutilados, encontramos uma ausência sentida como presença efetiva, o que se observa nos anosognósicos é uma presença concreta que é tomada erroneamente como ausência ou falta. Se for considerado o corpo como objeto material, a anosognose aparece como um erro grosseiro, pois o braço ignorado permanece presente, como uma peça encaixada corpo. Entretanto, observar a agnosognose como um “recalque orgânico”, uma espécie de esquecimento ou desvio por parte do paciente, em outras palavras, aplicando-se a categoria oposta da psicologia, não é possível também chegar a uma conclusão plausível. Não importa de qual perspectiva se aborde os dois problemas, o que se consegue é uma espécie de disjunção exclusiva, ou causalidade objetiva ou cogitationes, o em-si ou o para-si, sem que haja uma articulação entre as partes. 

O que Merleau-Ponty pretende não é escolher qual a melhor perspectiva para se analisar os problemas, mas ele busca encontrar o meio em que se articulam as duas ordens do fenômeno, o em-si e o para-si, a alma e o corpo, a causalidade objetiva e a subjetividade. O membro fantasma e a anosognose não são, para Merleau-Ponty, apenas processos em terceira pessoa, já que não dependem exclusivamente do corpo e de suas condições fisiológicas; também não se limitam à primeira pessoa, pois não são desvios deliberados ou pensamentos elaborados pela vontade do paciente, ou mesmo o derramamento do psíquico no terreno do somático. Merleau-Ponty responde a tal questão através da observação do comportamento dos insetos, na página 117, explicando que, quando o inseto substitui, instintivamente, uma pata cortada pela pata sã, isso não quer dizer que um dispositivo de auxílio se substitua por desencadeamento automático ao circuito que é posto fora de uso; o que, por outro lado, não significa que o animal tenha consciência de um objetivo e que utilize seus membros como meios diferenciados, porque, neste caso, a troca deveria acontecer toda vez que o ato fosse impedido,mas isso não acontece quando a pata está apenas presa. Segundo o filósofo, o que muda no inseto é a maneira pela qual ele emprega sentido em seus reflexos. O que está por trás do fenômeno de substituição das patas “é o movimento do ser no mundo” é a maneira pela qual o inseto se engaja em uma situação concreta e a investe de sentido.

Voltando à questão do membro fantasma e da agnosognose, na página 119, Merleau-Ponty diz que, caso nos baseássemos no paradigma da fisiologia, o membro fantasma seria apenas a persistência de estimulações interoceptivas numa região do corpo

que inexiste, e os sintomas do anosognósico, seriam a supressão desses estímulos ou a perda de sensibilidade num membro aparentemente saudável. Os dois casos, segundo a fisiologia, deveriam tatar-se apenas do funcionamento defeituoso da estrutura neural do paciente, um prolongamento e uma interrupção errôneos em cada um dos doentes. Entretanto, se formos nos basear nas respostas da psicologia, não encontraremos um terreno firme, pois a fraqueza de seus argumentos é tão evidente quanto as conclusões de um exame estritamente fisiológico. A ambiguidade das duas doenças é vista pela psicologia como a permanência pensamentos ou juízos do sujeito em relação ao seu corpo e às partes dele, sendo o membro fantasma uma recordação, juízo positivo ou uma percepção de um membro que já não existe; e o membro esquecido do anosognósico é isto como um esquecimento ou juízo negativo do membro que existe. 

De acordo do Merleau-Ponty, a experiência do inseto ajuda a esclarecer os dois fenômenos, pois os dois domínios se aproximam muito sob o aspecto do engajamento do corpo numa situação concreta, profundamente envolvido no ambiente do mundo, aberto a esta mesma situação pela percepção. Desta forma, vemos o membro fantasma como uma região corporal que, mesmo ausente e desligada de todo o aparato sensório-motor, ainda persiste em se manter aberta ao seu muno; e vemos a anosognose, fenômeno oposto, como a recusa do mundo, localizada num dos membros, que não mais se move nem sente o meio circundante, negando-se a responder ao que o mundo lhe solicita. Através dessas conclusões parciais, pode-se perceber a importância do corpo na filosofia de Merleau-Ponty: “O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles.” 

Ao respeito da ambigüidade, Merleau-Ponty resume dizendo que da sedimentação do passado do indivíduo, impressa em hábitos, gestos e manias, depende o uso que ele faz de seu corpo na atualidade. E isso caracteriza a ambiguidade do corpo, como a sua composição em duas camadas existenciais, a saber, o corpo habitual e o corpo atual, sendo o primeiro o “fiador” do último. A partir disso, podemos concluir que, no mutilado, as intenções motoras solicitadas à sua perna fantasma fazem referência ao corpo habitual, que se mostra presente na atualidade, apesar de sua perna estar ausente. A ambiguidade deixa de ser um problema e passa a integrar a estrutura; e o corpo passa a comportar com harmonia essa mistura generalizada e atual. E a experiência do recalque torna ainda mais claro o fenômeno da ambiguidade temporal, vivida pelo paciente do membro fantasma. Não sendo o corpo um objeto estritamente material, pode-se deduzir que ele arrasta consigo todo o seu passado, que se projeta no seu presente objetivando um futuro ainda em estado virtual, e reage de maneiras diversas diante do mundo, levando em consideração a situação com a qual está envolvido seu corpo. Pode-se dizer que a pessoa está encarnada num corpo que é ambíguo, amparando uma experiência existencial que é ambígua em seu íntimo. Não sendo uma mera máquina corpórea, torna-se impossível falar em separação entre corpo e alma, entre sujeito e meio exterior, entre para-si e em si. 

Merleau-Ponty, em sua filosofia, coloca o corpo como sustentáculo da existência, como o apoio do ser no mundo. E esse corpo não é apenas mecânico, matéria, invólucro para a alma, mera vestimenta para um Cogito na existência. Merleau-Ponty desmonta o paradigma cartesiano de separação entre alma e corpo, tenta uma articulação entre as ordens do em-si e do para-si, superando essa dicotomia, examinando as objeções da fisiologia moderna e da psicologia clássica, trabalhando para situar o corpo, não mais como objeto ou representação, mas como um todo no centro da existência.

CAPÍTULO II
A EXPERIÊNCIA DO CORPO E A PSICOLOGIA PRÁTICA
   
O capítulo II da Fenomenologia da Percepção, de Merleau-Ponty, traz uma crítica à psicologia clássica, pelo equívoco que traduz a sua postura: de colocar-se numa perspectiva impessoal e separada do mundo, esquecendo que a abertura ao mundo é o campo primordial das vivências, e que é o mundo que concede significado às experiências, por meio do campo afetivo da consciência. Em outras palavras, Merleau-Ponty critica a psicologia clássica pelo fato dela negar o engajamento do corpo nos fenômenos, deixando claro que a falha dos psicólogos, neste sentido, está no referencial epistemológico adotado.

Merleau-Ponty inicia o capítulo II de seu livro destacando que o corpo não é um objeto como os outros, “ele se distingue da mesa ou da lâmpada porque é percebido constantemente, enquanto posso me afastar daquelas. Portanto, ele é um objeto que não me deixa”, (pág. 133). Isso quer dizer que, enquanto o objeto pode ser observado à distância sob diferentes ângulos, sendo possível seu manuseio, e havendo possibilidade de sua percepção em todas as suas variações, o corpo apresenta a condição de nunca poder ser deixado de lado, mostrando-se sempre sob a mesma perspectiva – sendo impossível uma visão mais detalhada de si mesmo, sendo inconcebível a chance de dele mesmo se afastar. Levando em conta tal situação, e também o fato de ser ainda com o meu corpo que eu vejo e manuseio os objetos exteriores, como posso igualar o meu corpo aos objetos que ele utiliza? Esta é a pergunta que permeia todo o primeiro parágrafo do texto, em argumentos que têm como objetivo mostrar o posicionamento da psicologia clássica, em sua crítica do modelo mecanicista, ressaltando a experiência do corpo. Segundo Merleau-Ponty, a primeira característica que a psicologia clássica aplica ao corpo é a permanência e, ao denominá-lo como um objeto que nunca o abandona, desmonta a interpretação objetivista, de acordo com o fragmento da página 133, no texto: “o objeto só é objeto se pode distanciar-se e, no limite, desaparecer do meu campo visual”. Por causa da sua permanência, o corpo está constantemente no campo visual do sujeito, o que não dá margem para a afirmação de que ele está simplesmente solto no mundo, já que tal afirmação poderia implicar na chance de sua dissolução, da mesma forma como acontece aos outros objetos. Enquanto o corpo, mostrado por uma perspectiva apenas, não se perfila sobre o mundo, os objetos vistos pelo corpo só aparecem para mim em perspectiva; uma perspectiva que só tem razão de ser por causa da necessidade que eu tenho e que não me aprisiona. “de minha janela, só se vê o campanário da igreja, mas esse constrangimento me promete ao mesmo tempo que de outro lugar se veria toda a igreja.” (pág. 134). O meu corpo,visto desta forma, fica paralelo, ao lado da experiência, e a variação das perspectivas acontece de acordo com a posição e a movimentação do corpo no cenário do mundo. Neste sentido, é o corpo que abre a perspectiva, ele não as tem. É percebido o tempo todo, ele não me deixa, mas não se reduz a objeto. Ele percebe, mas não pode ser percebido pelos próprios sentidos. O corpo próprio da psicologia clássica é um corpo cheio de contradições: “observo os objetos exteriores com meu corpo, eu os manejo, os inspeciono, dou a volta em torno deles, mas, quanto ao meu corpo, não o observo ele mesmo: para poder fazê-lo, seria preciso dispor de um segundo corpo que não seria ele mesmo observável.” (pág.135). Observa-se, sob esse ponto de vista, que é o corpo que nos abre ao mundo, e é por ele se furtar à própria percepção que possibilita a efetivação dela. Desta maneira, a permanência espalha um campo de potencialidades em torno do sujeito, e é dentro desse campo que os objetos se perfilam e se oferecem à experiência do homem: “a presença e a ausência dos objetos são apenas variações no interior de um campo de presença primordial, de um domínio perceptivo sobre os quais meu corpo tem potência [...], como também a apresentação perspectiva dos objetos só se compreende pela resistência de meu corpo a qualquer variação de perspectiva.” (pág. 136).

Merleau-Ponty, depois de apresentar as contribuições dadas pelos estudos da psicologia, confronta-os, dizendo que se a psicologia estudasse mais a fundo a permanência do corpo próprio, “podia conduzi-la ao corpo não mais como objeto do mundo, mas como meio de nossa comunicação com ele, ao mundo não mais como soma de objetos determinados, mas como horizonte latente de nossa experiência.” (pág. 136-137). Merleau-Ponty fala também, na página 137, das “sensações duplas”, que consistem na experiência de apertar a própria mão, ocasião em que é impossível dizer exatamente qual é a mão que aperta e qual é a apertada, porque é uma sensação ambígua. Merleau-Ponty aponta ainda, na página 138, uma outra fragilidade da psicologia, que pode ser facilmente identificada pelo caractere afetivo: no caso de uma dor causada por um prego que fere o meu pé, ninguém há de pensar que o pé é a causa ou a representação da dor, mas que ele é a região que dói; em outras palavras, “a dor indica seu lugar, [...] ela é constitutiva de um ‘espaço doloroso’”. A dor nunca se decompõe em “pensamento de dor” ou em significado de dor. O fundo afetivo é o responsável por impulsionar a consciência para fora de si mesma e que é involuntariamente desvelado pela psicologia clássica.

Por último, Merleau-Ponty investiga as “sensações cinestésicas”, que são os movimentos parciais do corpo em direção a um fim determinado, e as sensações que deles derivam. A psicologia têm, segundo Merleau-Ponty, uma tendência em decompor o movimento total do corpo em partes objetivas e reconstituir detalhadamente essa movimentação, até a síntese do movimento total. Os psicólogos antecipam o final desses movimentos, ignorando o movimento originário disparado pelo corpo próprio. Mas fica a questão: é possível decompor a motricidade em partes separadas, dependentes de um fim, da forma como pretende a psicologia? De acordo com Merleau-Ponty, na página 138 do texto, o corpo está sempre presente e não é preciso um movimento de preparação para alcançá-lo, pois eu movo diretamente esse corpo, sem a necessidade de procurá-lo, pois ele está comigo. A movimentação desse corpo é espontânea, a priori do surgimento num espaço que se pode partir ou quantificar. Por que então a psicologia, mesmo acertando nas suas respostas parciais, continua falhando quando tenta prosseguir em suas conclusões, chegando sempre ao fracasso? Para Merleau-Ponty, o mecanicismo e a psicologia ocupam dois extremos opostos do pensamento objetivista, que pecam por conta da orientação de suas teorias, ao separar o sujeito do objeto, reforçando o modelo cartesiano de pensamento. Segundo Merleau-Ponty, “eles se situavam no lugar de pensamento impessoal ao qual a ciência se referiu enquanto ela acreditou poder separar, nas observações, o que diz respeito à situação do observador e as propriedades do objeto absoluto.” (pág.139). Daí surge, uma vez mais, o problema das relações entre alma e corpo, a questão do pensamento objetivo - só que com uma tendência para o intelecto. Merleau-Ponty diz no texto que, colocando-se numa perspectiva impessoal e destacada do mundo, observando tudo de uma distância segura, os psicólogos ignoraram que era seu próprio psiquismo que estava sendo analisado, que era a sua consciência que estava em evidência. Ignoraram ainda a abertura originária para o mundo ( sua raiz e fundamento), que é o campo primordial de vivências, o que dá a essas vivências um significado. Segundo Merleau-Ponty (pág. 142), seria preciso retomar o campo afetivo da consciência, ser uma experiência, e não se fechar no interior da subjetividade. Deveria haver uma comunicação interior com o mundo, com o corpo e com os outros, deveria ser com eles, ao invés de permanecer ao lado deles. Em suma, para se fazer psicologia, é preciso mergulhar no mundo fenomenológico, encontrar o mundo humano e considerar o homem dentro desse mundo, é o que diz Merleau-Ponty.













CARL GUSTAV JUNG

A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

Por Ana Idalina Carvalho Nunes

[Resumo da Conferência proferida por Jung, sob o título de “Die Stimme des Innerem”
(“A voz do íntimo”) no Kulturbund, Viena, em novembro de 1932. Como tratado
Vom Werden der Persönlichkeit” (“Da formação da personalidade”) em
“Wirklichkeit der Seele” (“Realidade da alma”), Rascher, Zurique 1934.
Novas edições: 1939 e 1947. Nova edição (cartonada): 1969] 

            O tema “formação da personalidade” tem sido foco na área da educação nos tempos atuais mas, na maioria dos casos, é uma proposta que cai no vazio, diante da impossibilidade de se “ensinar personalidade” às crianças, já que os pais e educadores também não têm desenvolvida sua personalidade. A pedagogia desconsidera o fato de que, sendo a personalidade uma “totalidade psíquica, dotada de decisão, resistência e força”, deve-se constatar que é um ideal de pessoa adulta, impossível de existir na infância. É claro que a personalidade existe na criança, mas é uma semente que se desenvolve ao longo da vida e não há sequer uma forma do educador ter certeza da maneira como a personalidade vai aflorar, podendo a criança tanto se transformar em uma pessoa brilhante que promova o bem da humanidade, como também se transformar em um monstro. É impossível fazer uma previsão exata, o que leva à afirmação de que “a personalidade é ao mesmo tempo um carisma e uma maldição”.

Sendo impossível encontrar na idade infantil tais características, é fácil concluir que acreditar que a criança pudesse ser dotada de uma personalidade desenvolvida seria crer que seria viável transformar a criança numa imitação de adulto, desnatural e precoce. Personalidade é o resultado de uma vida de máxima coragem de entrega, afirmação absoluta do ser individual, é o produto da adaptação a tudo que existe no universo, além de grande liberdade de decidir por si próprio. Será que os pais e educadores atingem esse ideal de personalidade? A grande maioria não, o que infere que também grande parte dos educadores não está preparada para formar a personalidade de crianças. Os métodos pedagógicos tolos que muitos deles aplicam prova que não estão preparados para formar personalidade de crianças.

Quando se fala em educação para a personalidade, o alvo são as crianças, mas deveria se falar na criança que existe no adulto. O homem do século XXI continua perdido em meio à grande coletividade e ainda não superou as consequências da educação massificadora que recebeu. Ele sabe o quão longe está de ter uma personalidade e, sentindo-se incapaz de agir sobre si mesmo, entusiasma-se com a psicologia e educação infantis. O que ele ignora, entretanto, é não conseguirá corrigir nos filhos ou alunos, os erros que ele mesmo comete. E por conta dessa tentativa frustrada de oferecer aos filhos a educação que gostariam de ter recebido, muitas vezes os pais pecam, tornando-se permissivos e negando aos filhos os limites saudáveis na educação, principalmente quando reclamam terem sido educados com serveridade excessiva. Acreditando terem superado as impressões ruins causadas por uma educação errada, eles erram utilizando um extremo desta educação, desconsiderando o quão perigosos são os extremos. O que podemos ver mais comumente são pais se sacrificando para oferecer aos filhos aquilo que eles queriam para si mesmos, desconsiderando o que os filhos querem para eles próprios. Os pais acreditam saber o que é melhor para os filhos, mas esse melhor é contextualizado nos sonhos que os pais tinham para si mesmos.

Assim, como pode um adulto educar para a personalidade, se ele próprio não tem personalidade? Levando em conta este questionamento é que defendemos a tese de que a educação para a personalidade deve começar pelos educadores. 

O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE NA 
PESSOA ADULTA
Em primeiro lugar, vale ressaltar que a personalidade não pode ser desenvolvida através de um convite ou mesmo porque se recebeu uma ordem. Se não houver uma grande necessidade, se não for obrigada a desenvolver-se, nada acontece, mesmo porque é muito mais cômodo seguir regras e viver comodamente, do que despertar para a necessidade de mudar a própria direção e tomar um novo caminho. Necessidade, escolha do caminho e designação – eis os três passos para se ouvir a voz interior, para despertar a personalidade e deixar nascer um líder, um herói, uma pessoa iluminada (ou até mesmo uma personalidade cruel e destruidora). Apenas quando se passa por uma grande dificuldade é que se pensa em escolher um novo caminho. E, para a escolha desse caminho é imprescindível ouvir a voz interior, que dita as leis que se deve obedecer.

Se a pessoa tiver alguma dúvida de que o caminho que escolheu é o melhor, ela pode acabar se perdendo em outros caminhos marcados pelas convenções (sociais, morais, religiosas, políticas, filosóficas etc.) e, ao invés de seguir o caminho que sua própria lei ditou, seguir as convenções, o caminho coletivo que outros escolheram por ela, passando a seguir um método coletivo, o que causa enorme prejuízo à sua personalidade. E não se pode acusar a grande maioria que abre mão do grande presente que é o desenvolvimento da própria personalidade, para seguir um caminho mais fácil. O desenvolvimento da personalidade é atemorizante por conta de suas consequências, a começar pelo isolamento. Quando uma pessoa se destaca da grande massa e começa a pensar por si próprio, a agir pela própria lei, é considerada louca, não consegue se fazer entender pelos outros, é ignorada. Isso porque a grande maioria tem seus pensamentos sufocados por uma barreira fortíssima de preconceitos, o que os impede de enxergar a vida e avaliá-la por si mesmos. Os que ficam presos à coletividade não conseguem compreender como alguém pode escolher um caminho estreito e íngreme sem a certeza de onde poderá chegar, quando é possível caminhar por uma estrada larga e livre de imprevistos, na qual se pode ver claramente o destino. O homem massificado não precisa pensar: ele adere ao pensamento coletivo. E rejeita tudo o que pode tirá-lo da estagnação em que se encontra, encontra respostas que expliquem todas as suas poucas dúvidas, mascarando a personalidade incômoda – tentando matar o demônio que insiste em mostrar o que ele, definitivamente, não quer ver. Quem se perde em meio à coletividade imagina viver confortavelmente, mas perde o sentido da própria vida, vivendo o sentido grupal. 

“O desenvolvimento da personalidade é um bem tão precioso, que se deve pagar um alto preço por ele”. Os grandes nomes da história viveram livres das convenções, livraram-se delas, escolhendo ouvir a própria voz interior, desapegando-se de tudo o que é coletivo: dos medos, convicções, leis e métodos. Podemos chamá-los de “iluminados”, os que nunca foram esquecidos, os “heróis lendários da humanidade, os admirados, os queridos, os adorados, os verdadeiros filhos de Deus, cujos nomes não desaparecem nos períodos infindáveis do tempo”. Cada uma dessas personalidades tem relato de um momento que foi crucial em suas vidas, em que foram movidos or uma voz, um chamado interior que os levou a escolher um caminho e a segui-lo fielmente, sem ceder ao cansaço ou ao desânimo. A essa voz interior, a sociedade costuma chamar demônio ou deus interior, que ordena a pessoa a fazer tal ou qual coisa. O homem que tem designação obedece à sua própria lei, como se um demônio lhe insuflasse caminhos novos e estranhos. Quem tem designação escuta a voz do seu íntimo, está designado.

A personalidade age na pessoa da mesma maneira que um grande líder atua na sociedade. Salvando, modificando e curando. É como se a pessoa não designada fosse um rio perdido em seus braços secundários e pantanosos, ou então como se fosse uma semente germinando embaixo de uma pedra. A designação, ou iluminação, em suma, o desabrochar da personalidade age sobre a pessoa da mesma forma que sobre o rio que, repentinamente, descobrisse seu verdadeiro leito; ou como a semente germinada que, como por milagre, se visse livre da pedra que impedia seu crescimento normal.Ouvir a voz interior é abrir-se para uma vida plena, para uma consciência ampla e abrangente. O desabrochar da personalidade corresponde a um aumento de consciência, a uma “iluminação”. A voz interior apresenta aquilo que é visto como “o mal” para as pessoas comuns (a personalidade) de maneira tentadora e convincente, com a finalidade de convencer a pessoa a ceder a esse mal. Se a pessoa não cede e não assume esse mal, nada desse mal penetra nela. Em contrapartida, morre qualquer possibilidade de mudança, renovação ou cura dos problemas de que padece a sociedade da qual faz parte. Se a pessoa cede apenas em parte, ela não muda radicalmente, não promove uma grande tempestade, mas ainda assim a situação é produtiva, já que ela consegue enxergar claramente o que acontece e, a partir daí, tem a possibilidade de adaptar o seu cotidiano às leis próprias e desvincular-se parcialmente da massa. No entanto, se a pessoa se atemoriza e foge do mal, ela se perde em meio à multidão, perdendo sua identidade e assumindo a personalidade coletiva, passando a agir conforme os grupos, a sentir o que sente a grande massa. Mas não se pode condenar a grande maioria das pessoas por agirem de tal forma, já que o que é melhor pode mesmo parecer um mal, quando as pessoas já possuem o que é bom. E para que algo melhor acontece, uma coisa boa tem que ter fim e ceder o lugar a essa coisa destinada a ser algo de melhor – que dará a impressão de ser algo muito mau, pelo menos à primeira vista. Mas o fato de o melhor parecer mau inicialmente, não quer dizer que o mal não possa se intrometer nessas questões, sob a alegação de ser o melhor – o que torna esse terreno cheio de armadilhas escondidas, escorregadio e perigoso, como a própria vida é.

A PERSONALIDADE, ENFIM, O QUE É?
Partir para a conquista da personalidade, jogar-se nesta aventura em que o prêmio é a plenitude, a iluminação, é, sem dúvida alguma, o maior dos riscos. O demônio da voz interior é, a um mesmo tempo, o perigo máximo e o auxílio indispensável. Por sabermos tudo isso, não podemos condenar aqueles que se negam a pensar por si mesmos, a seguir a própria lei, a obedecer obstinadamente à sua voz interior, tornando-se os grandes líderes, heróis, seres iluminados de que a humanidade tanto precisa. Tampouco devemos criticar os pais e educadores que, temerosos do desconhecido que reside por trás da personalidade de cada um, tentam proteger seu rebanho, recomendando que escolham caminhos mais fáceis, que evitem os abismos, que contrariem as leis e regras sociais, enfim, educadores e pais que preferem ver suas crianças crescerem presas às convenções do que correrem o risco de serem plenas e pensarem por si próprias. Talvez para formar a personalidade seja, depois da urgência de desenvolver um trabalho árduo com pais e educadores, aprender e ensinar a aceitar as diferenças, desmontar o estereótipo de “mal” que paira sobre o desconhecido. Talvez seja preciso aprender a deixar que a curiosidade natural da criança não seja limitada com frases do tipo: “Você vai cair”, “Você vai se machucar”, “É perigoso”, “Você não vai conseguir”. Aprender com a criança a sermos mais ousados e destemidos diante do novo.

Contudo, recomendando que as crianças encontrem um caminho que se desvie de abismos, um caminho diferente, os pais e educadores não poderão impedir que seus educandos se coloquem à frente da grande multidão e que partam para a busca de um caminho mais alto e seguro, segundo sua própria lei. E aí, o jovem estará ouvindo sua voz interior e permitindo que ela comande a sua ação. E, nesse caso, ainda que coloquem uma pedra em cima da semente que germina, ela segue sua missão e encontra um caminho para a luz. E o caminho que precisa ser descoberto é como algo psiquicamente vivo, que a filosofia clássica chinesa denomina TAO. “É comparado a um curso de água que se movimenta inexoravelmente para a meta final”. “Estar dentro do TAO significa perfeição, totalidade, desígnio cumprido, começo e fim”. PERSONALIDADE É TAO.





HOMENAGEM PÓSTUMA AO PROF. MÁRIO JOSÉ DOS SANTOS

     Por Ana Idalina Carvalho Nunes                                        Foto  de 2010, no ICH antigo da Universidade Federal de ...