quinta-feira, 28 de junho de 2012


FILOSOFIA E LINGUAGEM
 * Mário José dos Santos

Está no DNA da Filosofia o procedimento crítico. O juízo crítico supõe discernimento (arte de julgar de forma clara) e adota um critério. Critério é um termo de origem grega que significa “medida” ou lei que nos permite, até certo ponto, distinguir  falsidade e verdade, bem e mal. Exercer o juízo crítico implica “julgar” e só pode julgar quem possui critério, isto é, a “medida justa”, supostamente, verdadeira. E esta pode no-la dar, dentro de certos limites, a filosofia. Logo, julgar com base numa medida criada pela imaginação ou pela fantasia é, simplesmente, um ato desvairado. Quem vive distraído olvida que, além das funções vitais (comer, beber e lazer), há uma essencial, imprescindível: pensar. A televisão tem duas filhas “nobres”: a diversão e a “preguiça mental”. Lamentavelmente, o caminho de saída da inércia existencial – o bom livro – está desprestigiado. Dizem que “os olhos são janelas da alma”. Esse fragmento popular parece coincidir bastante com a verdade. Àquela face humana cabisbaixa, semidestruída (feita de olhar sem brilho e sem determinação), segue-se um discurso (uma fala) anunciador de uma interioridade polida pelo medo e/ou pelo ódio. Trata-se de um ser agoniado, batido pelo sofrimento, morrendo de dentro para fora. Quem se dedica à filosofia sente-se, quase sempre, incomodado por este tipo de comportamento, sobretudo, quando aceito pacífica e tacitamente, porque nele constata a falta de amadurecimento do senso crítico. E, essa maturidade, só advém através dos caminhos abertos pela “reflexão”, característicos daquela sabedoria que predispõe o ser humano para decisões corajosas e atitudes eficientes reclamadas pelo cuidado e pela consideração de si mesmo. A linguagem, que manifesta o pensamento, é espelho dos sentimentos, reveladora, portanto, da interioridade. Quem está, por exemplo, amargurado dificilmente conseguirá produzir uma fala livre deste sentimento, que inspire coragem e força de superação. A linguagem e o pensamento estão inseparavelmente ligados e interinfluenciam-se. Seria muito útil lembrar aqui que “sabedoria e “sabor” têm uma única e mesma origem etimológica. Derivam do  vocábulo latino “sapere”. Significa que, quando se procura a “verdade”, ela só se encontra naquilo que tem sabor (gosto) de realização, de conquista, de caminho trilhado com satisfação, alegria e eficiência. Infelizmente, há aqueles que lutam contra-si-mesmos (fenômeno da autorrejeição), quando deveriam lutar em prol de si mesmos (ainda que por instinto de sobrevivência), evitando a autoflagelação e o “vitimismo” decorrentes da obtusidade “pré-filosófica”. Entenda que a filosofia não é privilégio dos eruditos, de pesquisadores e dos catedráticos, mas que está ao alcance de qualquer ser humano (por natureza, racional) desde que aceite e adote a sábia decisão de fazer sempre uma coisa simples: pensar. E aquele que pensa é quem põe, com firmeza, os alicerces e adquire os pressupostos de uma conduta aberta, sólida, tranqüila e veraz. Isso é mais belo que o extasiar-se, num fim de tarde, contemplando uma maravilhosa panapaná.
                                                   
    
* Coordenador do curso de Filosofia  e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor do livro "Os pré-socráticos" (Ed. UFJF).

HOMENAGEM PÓSTUMA AO PROF. MÁRIO JOSÉ DOS SANTOS

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