quinta-feira, 17 de setembro de 2015

MAURICE MERLEAU-PONTY

FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO
Resumo dos dois primeiros capítulos do livro, por Ana Idalina Carvalho Nunes


CAPÍTULO I

O CORPO COMO OBJETO E A FISIOLOGIA MECANICISTA

O capítulo I da “Fenomenologia da Percepção”, de Merleau-Ponty, intitulado O corpo como objeto e a fisiologia mecanicista, está centrado na tese de que o corpo é objeto e nem a fisiologia, nem a psicologia, dão conta de entendê-lo. O filósofo dá início à sua apresentação definindo o corpo-objeto como um corpo no qual os sentidos são partes independentes que não se relacionam entre si, sendo também os dados captados por esses mesmos sentidos, qualidades independentes e isoladas umas das outras. Segundo Ponty, cada sentido corresponde a um órgão e para responder aos estímulos do mundo, o que os sentidos fazem é apenas emitir uma reação mecânica.

Entretanto, entender o corpo como partes extra partes traz um grande problema pois, considerando-se que a captação é feita pelas partes, caso o conduto neural fosse lesionado a pessoa perderia os dados sensoriais. E isso não acontece, de acordo com a afirmação do próprio Merleau-Ponty, na página 112: “as lesões dos centros e até mesmo dos condutos não se traduzem pela perda de certas qualidades sensíveis ou de certos dados sensoriais, mas por uma diferenciação da função.” Segundo Merleu-Ponty, os dados não são perdidos, o que se perde é a maneira pela o corpo responde ao mundo que é distorcida. E ele exemplifica com clareza a afirmação, apresentando o caso do paciente com lesões centrais, que passa a perceber as cores de forma diferente. O que acontece nesse caso, de acordo com Ponty, é que as lesões decompõem a sensibilidade do doente, afetando a organização da percepção. E neste ponto observa-se uma espécie de integração funcional dos sentidos corporais, o que afasta, pelo menos num primeiro momento, a ideia de um corpo partes extra partes, pois aponta para uma percepção do mundo que necessita da participação de um corpo que é responsável pelo desdobramento dos dados sensoriais dentro de Uma percepção efetiva – e não numa resposta linear a um estímulo qualquer. Em outras palavras, a partir do momento em que percebo o mundo exterior, recebo dele os estímulos e passo a ter consciência do corpo. A alma então, se espalha pelo corpo e isso gera o comportamento.

Merleau-Ponty vai fundo neste problema, discutindo os casos de pacientes que apresentam situações de membro fantasma e de anosognose. Ele, escolhendo esses casos para apresentar, tem o objetivo de mostrar que tais distúrbios não encontram explicação plausível nem da fisiologia, nem da psicologia. Em ambas, as explicações conduzem mais a equívocos do que a soluções. No caso do membro fantasma, o paciente, captando dados dos sentidos, sente no coto a presença de um braço que não existe mais em seu corpo. A fisiologia não consegue chegar a um diagnóstico definitivo sobre casos de membro fantasma, mas se levarmos tal situação para o campo da psicologia, teremos ainda menos sucesso, pois chegaremos às mesmas dificuldades do mecanicismo e da causalidade linear. Não somente um ferimento ou uma mutilação, “uma emoção, uma circunstância que relembre as do ferimento fazem aparecer um membro fantasma em pacientes que não o tinham.” Então, relacionar o membro fantasma apenas a fenômenos somáticos é enxergar somente uma das faces do fenômeno do corpo, ignorando sua complexidade; mas introduzi-lo no campo do psiquismo e da subjetividade acabam levando a experiência corporal para um plano ambíguo, no qual a aplicação de categorias é problemática.

O mesmo acontece na situação da anosognose, moléstia em que o doente não possui, aparentemente, nenhum defeito físico, mas ignora uma das partes de seu corpo, como um braço ou uma perna, que nele é parcialmente insensível, que ele chega a relatar uma “serpente longa e fria” atada ao seu corpo. Enquanto, no caso dos mutilados, encontramos uma ausência sentida como presença efetiva, o que se observa nos anosognósicos é uma presença concreta que é tomada erroneamente como ausência ou falta. Se for considerado o corpo como objeto material, a anosognose aparece como um erro grosseiro, pois o braço ignorado permanece presente, como uma peça encaixada corpo. Entretanto, observar a agnosognose como um “recalque orgânico”, uma espécie de esquecimento ou desvio por parte do paciente, em outras palavras, aplicando-se a categoria oposta da psicologia, não é possível também chegar a uma conclusão plausível. Não importa de qual perspectiva se aborde os dois problemas, o que se consegue é uma espécie de disjunção exclusiva, ou causalidade objetiva ou cogitationes, o em-si ou o para-si, sem que haja uma articulação entre as partes. 

O que Merleau-Ponty pretende não é escolher qual a melhor perspectiva para se analisar os problemas, mas ele busca encontrar o meio em que se articulam as duas ordens do fenômeno, o em-si e o para-si, a alma e o corpo, a causalidade objetiva e a subjetividade. O membro fantasma e a anosognose não são, para Merleau-Ponty, apenas processos em terceira pessoa, já que não dependem exclusivamente do corpo e de suas condições fisiológicas; também não se limitam à primeira pessoa, pois não são desvios deliberados ou pensamentos elaborados pela vontade do paciente, ou mesmo o derramamento do psíquico no terreno do somático. Merleau-Ponty responde a tal questão através da observação do comportamento dos insetos, na página 117, explicando que, quando o inseto substitui, instintivamente, uma pata cortada pela pata sã, isso não quer dizer que um dispositivo de auxílio se substitua por desencadeamento automático ao circuito que é posto fora de uso; o que, por outro lado, não significa que o animal tenha consciência de um objetivo e que utilize seus membros como meios diferenciados, porque, neste caso, a troca deveria acontecer toda vez que o ato fosse impedido,mas isso não acontece quando a pata está apenas presa. Segundo o filósofo, o que muda no inseto é a maneira pela qual ele emprega sentido em seus reflexos. O que está por trás do fenômeno de substituição das patas “é o movimento do ser no mundo” é a maneira pela qual o inseto se engaja em uma situação concreta e a investe de sentido.

Voltando à questão do membro fantasma e da agnosognose, na página 119, Merleau-Ponty diz que, caso nos baseássemos no paradigma da fisiologia, o membro fantasma seria apenas a persistência de estimulações interoceptivas numa região do corpo

que inexiste, e os sintomas do anosognósico, seriam a supressão desses estímulos ou a perda de sensibilidade num membro aparentemente saudável. Os dois casos, segundo a fisiologia, deveriam tatar-se apenas do funcionamento defeituoso da estrutura neural do paciente, um prolongamento e uma interrupção errôneos em cada um dos doentes. Entretanto, se formos nos basear nas respostas da psicologia, não encontraremos um terreno firme, pois a fraqueza de seus argumentos é tão evidente quanto as conclusões de um exame estritamente fisiológico. A ambiguidade das duas doenças é vista pela psicologia como a permanência pensamentos ou juízos do sujeito em relação ao seu corpo e às partes dele, sendo o membro fantasma uma recordação, juízo positivo ou uma percepção de um membro que já não existe; e o membro esquecido do anosognósico é isto como um esquecimento ou juízo negativo do membro que existe. 

De acordo do Merleau-Ponty, a experiência do inseto ajuda a esclarecer os dois fenômenos, pois os dois domínios se aproximam muito sob o aspecto do engajamento do corpo numa situação concreta, profundamente envolvido no ambiente do mundo, aberto a esta mesma situação pela percepção. Desta forma, vemos o membro fantasma como uma região corporal que, mesmo ausente e desligada de todo o aparato sensório-motor, ainda persiste em se manter aberta ao seu muno; e vemos a anosognose, fenômeno oposto, como a recusa do mundo, localizada num dos membros, que não mais se move nem sente o meio circundante, negando-se a responder ao que o mundo lhe solicita. Através dessas conclusões parciais, pode-se perceber a importância do corpo na filosofia de Merleau-Ponty: “O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles.” 

Ao respeito da ambigüidade, Merleau-Ponty resume dizendo que da sedimentação do passado do indivíduo, impressa em hábitos, gestos e manias, depende o uso que ele faz de seu corpo na atualidade. E isso caracteriza a ambiguidade do corpo, como a sua composição em duas camadas existenciais, a saber, o corpo habitual e o corpo atual, sendo o primeiro o “fiador” do último. A partir disso, podemos concluir que, no mutilado, as intenções motoras solicitadas à sua perna fantasma fazem referência ao corpo habitual, que se mostra presente na atualidade, apesar de sua perna estar ausente. A ambiguidade deixa de ser um problema e passa a integrar a estrutura; e o corpo passa a comportar com harmonia essa mistura generalizada e atual. E a experiência do recalque torna ainda mais claro o fenômeno da ambiguidade temporal, vivida pelo paciente do membro fantasma. Não sendo o corpo um objeto estritamente material, pode-se deduzir que ele arrasta consigo todo o seu passado, que se projeta no seu presente objetivando um futuro ainda em estado virtual, e reage de maneiras diversas diante do mundo, levando em consideração a situação com a qual está envolvido seu corpo. Pode-se dizer que a pessoa está encarnada num corpo que é ambíguo, amparando uma experiência existencial que é ambígua em seu íntimo. Não sendo uma mera máquina corpórea, torna-se impossível falar em separação entre corpo e alma, entre sujeito e meio exterior, entre para-si e em si. 

Merleau-Ponty, em sua filosofia, coloca o corpo como sustentáculo da existência, como o apoio do ser no mundo. E esse corpo não é apenas mecânico, matéria, invólucro para a alma, mera vestimenta para um Cogito na existência. Merleau-Ponty desmonta o paradigma cartesiano de separação entre alma e corpo, tenta uma articulação entre as ordens do em-si e do para-si, superando essa dicotomia, examinando as objeções da fisiologia moderna e da psicologia clássica, trabalhando para situar o corpo, não mais como objeto ou representação, mas como um todo no centro da existência.

CAPÍTULO II
A EXPERIÊNCIA DO CORPO E A PSICOLOGIA PRÁTICA
   
O capítulo II da Fenomenologia da Percepção, de Merleau-Ponty, traz uma crítica à psicologia clássica, pelo equívoco que traduz a sua postura: de colocar-se numa perspectiva impessoal e separada do mundo, esquecendo que a abertura ao mundo é o campo primordial das vivências, e que é o mundo que concede significado às experiências, por meio do campo afetivo da consciência. Em outras palavras, Merleau-Ponty critica a psicologia clássica pelo fato dela negar o engajamento do corpo nos fenômenos, deixando claro que a falha dos psicólogos, neste sentido, está no referencial epistemológico adotado.

Merleau-Ponty inicia o capítulo II de seu livro destacando que o corpo não é um objeto como os outros, “ele se distingue da mesa ou da lâmpada porque é percebido constantemente, enquanto posso me afastar daquelas. Portanto, ele é um objeto que não me deixa”, (pág. 133). Isso quer dizer que, enquanto o objeto pode ser observado à distância sob diferentes ângulos, sendo possível seu manuseio, e havendo possibilidade de sua percepção em todas as suas variações, o corpo apresenta a condição de nunca poder ser deixado de lado, mostrando-se sempre sob a mesma perspectiva – sendo impossível uma visão mais detalhada de si mesmo, sendo inconcebível a chance de dele mesmo se afastar. Levando em conta tal situação, e também o fato de ser ainda com o meu corpo que eu vejo e manuseio os objetos exteriores, como posso igualar o meu corpo aos objetos que ele utiliza? Esta é a pergunta que permeia todo o primeiro parágrafo do texto, em argumentos que têm como objetivo mostrar o posicionamento da psicologia clássica, em sua crítica do modelo mecanicista, ressaltando a experiência do corpo. Segundo Merleau-Ponty, a primeira característica que a psicologia clássica aplica ao corpo é a permanência e, ao denominá-lo como um objeto que nunca o abandona, desmonta a interpretação objetivista, de acordo com o fragmento da página 133, no texto: “o objeto só é objeto se pode distanciar-se e, no limite, desaparecer do meu campo visual”. Por causa da sua permanência, o corpo está constantemente no campo visual do sujeito, o que não dá margem para a afirmação de que ele está simplesmente solto no mundo, já que tal afirmação poderia implicar na chance de sua dissolução, da mesma forma como acontece aos outros objetos. Enquanto o corpo, mostrado por uma perspectiva apenas, não se perfila sobre o mundo, os objetos vistos pelo corpo só aparecem para mim em perspectiva; uma perspectiva que só tem razão de ser por causa da necessidade que eu tenho e que não me aprisiona. “de minha janela, só se vê o campanário da igreja, mas esse constrangimento me promete ao mesmo tempo que de outro lugar se veria toda a igreja.” (pág. 134). O meu corpo,visto desta forma, fica paralelo, ao lado da experiência, e a variação das perspectivas acontece de acordo com a posição e a movimentação do corpo no cenário do mundo. Neste sentido, é o corpo que abre a perspectiva, ele não as tem. É percebido o tempo todo, ele não me deixa, mas não se reduz a objeto. Ele percebe, mas não pode ser percebido pelos próprios sentidos. O corpo próprio da psicologia clássica é um corpo cheio de contradições: “observo os objetos exteriores com meu corpo, eu os manejo, os inspeciono, dou a volta em torno deles, mas, quanto ao meu corpo, não o observo ele mesmo: para poder fazê-lo, seria preciso dispor de um segundo corpo que não seria ele mesmo observável.” (pág.135). Observa-se, sob esse ponto de vista, que é o corpo que nos abre ao mundo, e é por ele se furtar à própria percepção que possibilita a efetivação dela. Desta maneira, a permanência espalha um campo de potencialidades em torno do sujeito, e é dentro desse campo que os objetos se perfilam e se oferecem à experiência do homem: “a presença e a ausência dos objetos são apenas variações no interior de um campo de presença primordial, de um domínio perceptivo sobre os quais meu corpo tem potência [...], como também a apresentação perspectiva dos objetos só se compreende pela resistência de meu corpo a qualquer variação de perspectiva.” (pág. 136).

Merleau-Ponty, depois de apresentar as contribuições dadas pelos estudos da psicologia, confronta-os, dizendo que se a psicologia estudasse mais a fundo a permanência do corpo próprio, “podia conduzi-la ao corpo não mais como objeto do mundo, mas como meio de nossa comunicação com ele, ao mundo não mais como soma de objetos determinados, mas como horizonte latente de nossa experiência.” (pág. 136-137). Merleau-Ponty fala também, na página 137, das “sensações duplas”, que consistem na experiência de apertar a própria mão, ocasião em que é impossível dizer exatamente qual é a mão que aperta e qual é a apertada, porque é uma sensação ambígua. Merleau-Ponty aponta ainda, na página 138, uma outra fragilidade da psicologia, que pode ser facilmente identificada pelo caractere afetivo: no caso de uma dor causada por um prego que fere o meu pé, ninguém há de pensar que o pé é a causa ou a representação da dor, mas que ele é a região que dói; em outras palavras, “a dor indica seu lugar, [...] ela é constitutiva de um ‘espaço doloroso’”. A dor nunca se decompõe em “pensamento de dor” ou em significado de dor. O fundo afetivo é o responsável por impulsionar a consciência para fora de si mesma e que é involuntariamente desvelado pela psicologia clássica.

Por último, Merleau-Ponty investiga as “sensações cinestésicas”, que são os movimentos parciais do corpo em direção a um fim determinado, e as sensações que deles derivam. A psicologia têm, segundo Merleau-Ponty, uma tendência em decompor o movimento total do corpo em partes objetivas e reconstituir detalhadamente essa movimentação, até a síntese do movimento total. Os psicólogos antecipam o final desses movimentos, ignorando o movimento originário disparado pelo corpo próprio. Mas fica a questão: é possível decompor a motricidade em partes separadas, dependentes de um fim, da forma como pretende a psicologia? De acordo com Merleau-Ponty, na página 138 do texto, o corpo está sempre presente e não é preciso um movimento de preparação para alcançá-lo, pois eu movo diretamente esse corpo, sem a necessidade de procurá-lo, pois ele está comigo. A movimentação desse corpo é espontânea, a priori do surgimento num espaço que se pode partir ou quantificar. Por que então a psicologia, mesmo acertando nas suas respostas parciais, continua falhando quando tenta prosseguir em suas conclusões, chegando sempre ao fracasso? Para Merleau-Ponty, o mecanicismo e a psicologia ocupam dois extremos opostos do pensamento objetivista, que pecam por conta da orientação de suas teorias, ao separar o sujeito do objeto, reforçando o modelo cartesiano de pensamento. Segundo Merleau-Ponty, “eles se situavam no lugar de pensamento impessoal ao qual a ciência se referiu enquanto ela acreditou poder separar, nas observações, o que diz respeito à situação do observador e as propriedades do objeto absoluto.” (pág.139). Daí surge, uma vez mais, o problema das relações entre alma e corpo, a questão do pensamento objetivo - só que com uma tendência para o intelecto. Merleau-Ponty diz no texto que, colocando-se numa perspectiva impessoal e destacada do mundo, observando tudo de uma distância segura, os psicólogos ignoraram que era seu próprio psiquismo que estava sendo analisado, que era a sua consciência que estava em evidência. Ignoraram ainda a abertura originária para o mundo ( sua raiz e fundamento), que é o campo primordial de vivências, o que dá a essas vivências um significado. Segundo Merleau-Ponty (pág. 142), seria preciso retomar o campo afetivo da consciência, ser uma experiência, e não se fechar no interior da subjetividade. Deveria haver uma comunicação interior com o mundo, com o corpo e com os outros, deveria ser com eles, ao invés de permanecer ao lado deles. Em suma, para se fazer psicologia, é preciso mergulhar no mundo fenomenológico, encontrar o mundo humano e considerar o homem dentro desse mundo, é o que diz Merleau-Ponty.













CARL GUSTAV JUNG

A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

Por Ana Idalina Carvalho Nunes

[Resumo da Conferência proferida por Jung, sob o título de “Die Stimme des Innerem”
(“A voz do íntimo”) no Kulturbund, Viena, em novembro de 1932. Como tratado
Vom Werden der Persönlichkeit” (“Da formação da personalidade”) em
“Wirklichkeit der Seele” (“Realidade da alma”), Rascher, Zurique 1934.
Novas edições: 1939 e 1947. Nova edição (cartonada): 1969] 

            O tema “formação da personalidade” tem sido foco na área da educação nos tempos atuais mas, na maioria dos casos, é uma proposta que cai no vazio, diante da impossibilidade de se “ensinar personalidade” às crianças, já que os pais e educadores também não têm desenvolvida sua personalidade. A pedagogia desconsidera o fato de que, sendo a personalidade uma “totalidade psíquica, dotada de decisão, resistência e força”, deve-se constatar que é um ideal de pessoa adulta, impossível de existir na infância. É claro que a personalidade existe na criança, mas é uma semente que se desenvolve ao longo da vida e não há sequer uma forma do educador ter certeza da maneira como a personalidade vai aflorar, podendo a criança tanto se transformar em uma pessoa brilhante que promova o bem da humanidade, como também se transformar em um monstro. É impossível fazer uma previsão exata, o que leva à afirmação de que “a personalidade é ao mesmo tempo um carisma e uma maldição”.

Sendo impossível encontrar na idade infantil tais características, é fácil concluir que acreditar que a criança pudesse ser dotada de uma personalidade desenvolvida seria crer que seria viável transformar a criança numa imitação de adulto, desnatural e precoce. Personalidade é o resultado de uma vida de máxima coragem de entrega, afirmação absoluta do ser individual, é o produto da adaptação a tudo que existe no universo, além de grande liberdade de decidir por si próprio. Será que os pais e educadores atingem esse ideal de personalidade? A grande maioria não, o que infere que também grande parte dos educadores não está preparada para formar a personalidade de crianças. Os métodos pedagógicos tolos que muitos deles aplicam prova que não estão preparados para formar personalidade de crianças.

Quando se fala em educação para a personalidade, o alvo são as crianças, mas deveria se falar na criança que existe no adulto. O homem do século XXI continua perdido em meio à grande coletividade e ainda não superou as consequências da educação massificadora que recebeu. Ele sabe o quão longe está de ter uma personalidade e, sentindo-se incapaz de agir sobre si mesmo, entusiasma-se com a psicologia e educação infantis. O que ele ignora, entretanto, é não conseguirá corrigir nos filhos ou alunos, os erros que ele mesmo comete. E por conta dessa tentativa frustrada de oferecer aos filhos a educação que gostariam de ter recebido, muitas vezes os pais pecam, tornando-se permissivos e negando aos filhos os limites saudáveis na educação, principalmente quando reclamam terem sido educados com serveridade excessiva. Acreditando terem superado as impressões ruins causadas por uma educação errada, eles erram utilizando um extremo desta educação, desconsiderando o quão perigosos são os extremos. O que podemos ver mais comumente são pais se sacrificando para oferecer aos filhos aquilo que eles queriam para si mesmos, desconsiderando o que os filhos querem para eles próprios. Os pais acreditam saber o que é melhor para os filhos, mas esse melhor é contextualizado nos sonhos que os pais tinham para si mesmos.

Assim, como pode um adulto educar para a personalidade, se ele próprio não tem personalidade? Levando em conta este questionamento é que defendemos a tese de que a educação para a personalidade deve começar pelos educadores. 

O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE NA 
PESSOA ADULTA
Em primeiro lugar, vale ressaltar que a personalidade não pode ser desenvolvida através de um convite ou mesmo porque se recebeu uma ordem. Se não houver uma grande necessidade, se não for obrigada a desenvolver-se, nada acontece, mesmo porque é muito mais cômodo seguir regras e viver comodamente, do que despertar para a necessidade de mudar a própria direção e tomar um novo caminho. Necessidade, escolha do caminho e designação – eis os três passos para se ouvir a voz interior, para despertar a personalidade e deixar nascer um líder, um herói, uma pessoa iluminada (ou até mesmo uma personalidade cruel e destruidora). Apenas quando se passa por uma grande dificuldade é que se pensa em escolher um novo caminho. E, para a escolha desse caminho é imprescindível ouvir a voz interior, que dita as leis que se deve obedecer.

Se a pessoa tiver alguma dúvida de que o caminho que escolheu é o melhor, ela pode acabar se perdendo em outros caminhos marcados pelas convenções (sociais, morais, religiosas, políticas, filosóficas etc.) e, ao invés de seguir o caminho que sua própria lei ditou, seguir as convenções, o caminho coletivo que outros escolheram por ela, passando a seguir um método coletivo, o que causa enorme prejuízo à sua personalidade. E não se pode acusar a grande maioria que abre mão do grande presente que é o desenvolvimento da própria personalidade, para seguir um caminho mais fácil. O desenvolvimento da personalidade é atemorizante por conta de suas consequências, a começar pelo isolamento. Quando uma pessoa se destaca da grande massa e começa a pensar por si próprio, a agir pela própria lei, é considerada louca, não consegue se fazer entender pelos outros, é ignorada. Isso porque a grande maioria tem seus pensamentos sufocados por uma barreira fortíssima de preconceitos, o que os impede de enxergar a vida e avaliá-la por si mesmos. Os que ficam presos à coletividade não conseguem compreender como alguém pode escolher um caminho estreito e íngreme sem a certeza de onde poderá chegar, quando é possível caminhar por uma estrada larga e livre de imprevistos, na qual se pode ver claramente o destino. O homem massificado não precisa pensar: ele adere ao pensamento coletivo. E rejeita tudo o que pode tirá-lo da estagnação em que se encontra, encontra respostas que expliquem todas as suas poucas dúvidas, mascarando a personalidade incômoda – tentando matar o demônio que insiste em mostrar o que ele, definitivamente, não quer ver. Quem se perde em meio à coletividade imagina viver confortavelmente, mas perde o sentido da própria vida, vivendo o sentido grupal. 

“O desenvolvimento da personalidade é um bem tão precioso, que se deve pagar um alto preço por ele”. Os grandes nomes da história viveram livres das convenções, livraram-se delas, escolhendo ouvir a própria voz interior, desapegando-se de tudo o que é coletivo: dos medos, convicções, leis e métodos. Podemos chamá-los de “iluminados”, os que nunca foram esquecidos, os “heróis lendários da humanidade, os admirados, os queridos, os adorados, os verdadeiros filhos de Deus, cujos nomes não desaparecem nos períodos infindáveis do tempo”. Cada uma dessas personalidades tem relato de um momento que foi crucial em suas vidas, em que foram movidos or uma voz, um chamado interior que os levou a escolher um caminho e a segui-lo fielmente, sem ceder ao cansaço ou ao desânimo. A essa voz interior, a sociedade costuma chamar demônio ou deus interior, que ordena a pessoa a fazer tal ou qual coisa. O homem que tem designação obedece à sua própria lei, como se um demônio lhe insuflasse caminhos novos e estranhos. Quem tem designação escuta a voz do seu íntimo, está designado.

A personalidade age na pessoa da mesma maneira que um grande líder atua na sociedade. Salvando, modificando e curando. É como se a pessoa não designada fosse um rio perdido em seus braços secundários e pantanosos, ou então como se fosse uma semente germinando embaixo de uma pedra. A designação, ou iluminação, em suma, o desabrochar da personalidade age sobre a pessoa da mesma forma que sobre o rio que, repentinamente, descobrisse seu verdadeiro leito; ou como a semente germinada que, como por milagre, se visse livre da pedra que impedia seu crescimento normal.Ouvir a voz interior é abrir-se para uma vida plena, para uma consciência ampla e abrangente. O desabrochar da personalidade corresponde a um aumento de consciência, a uma “iluminação”. A voz interior apresenta aquilo que é visto como “o mal” para as pessoas comuns (a personalidade) de maneira tentadora e convincente, com a finalidade de convencer a pessoa a ceder a esse mal. Se a pessoa não cede e não assume esse mal, nada desse mal penetra nela. Em contrapartida, morre qualquer possibilidade de mudança, renovação ou cura dos problemas de que padece a sociedade da qual faz parte. Se a pessoa cede apenas em parte, ela não muda radicalmente, não promove uma grande tempestade, mas ainda assim a situação é produtiva, já que ela consegue enxergar claramente o que acontece e, a partir daí, tem a possibilidade de adaptar o seu cotidiano às leis próprias e desvincular-se parcialmente da massa. No entanto, se a pessoa se atemoriza e foge do mal, ela se perde em meio à multidão, perdendo sua identidade e assumindo a personalidade coletiva, passando a agir conforme os grupos, a sentir o que sente a grande massa. Mas não se pode condenar a grande maioria das pessoas por agirem de tal forma, já que o que é melhor pode mesmo parecer um mal, quando as pessoas já possuem o que é bom. E para que algo melhor acontece, uma coisa boa tem que ter fim e ceder o lugar a essa coisa destinada a ser algo de melhor – que dará a impressão de ser algo muito mau, pelo menos à primeira vista. Mas o fato de o melhor parecer mau inicialmente, não quer dizer que o mal não possa se intrometer nessas questões, sob a alegação de ser o melhor – o que torna esse terreno cheio de armadilhas escondidas, escorregadio e perigoso, como a própria vida é.

A PERSONALIDADE, ENFIM, O QUE É?
Partir para a conquista da personalidade, jogar-se nesta aventura em que o prêmio é a plenitude, a iluminação, é, sem dúvida alguma, o maior dos riscos. O demônio da voz interior é, a um mesmo tempo, o perigo máximo e o auxílio indispensável. Por sabermos tudo isso, não podemos condenar aqueles que se negam a pensar por si mesmos, a seguir a própria lei, a obedecer obstinadamente à sua voz interior, tornando-se os grandes líderes, heróis, seres iluminados de que a humanidade tanto precisa. Tampouco devemos criticar os pais e educadores que, temerosos do desconhecido que reside por trás da personalidade de cada um, tentam proteger seu rebanho, recomendando que escolham caminhos mais fáceis, que evitem os abismos, que contrariem as leis e regras sociais, enfim, educadores e pais que preferem ver suas crianças crescerem presas às convenções do que correrem o risco de serem plenas e pensarem por si próprias. Talvez para formar a personalidade seja, depois da urgência de desenvolver um trabalho árduo com pais e educadores, aprender e ensinar a aceitar as diferenças, desmontar o estereótipo de “mal” que paira sobre o desconhecido. Talvez seja preciso aprender a deixar que a curiosidade natural da criança não seja limitada com frases do tipo: “Você vai cair”, “Você vai se machucar”, “É perigoso”, “Você não vai conseguir”. Aprender com a criança a sermos mais ousados e destemidos diante do novo.

Contudo, recomendando que as crianças encontrem um caminho que se desvie de abismos, um caminho diferente, os pais e educadores não poderão impedir que seus educandos se coloquem à frente da grande multidão e que partam para a busca de um caminho mais alto e seguro, segundo sua própria lei. E aí, o jovem estará ouvindo sua voz interior e permitindo que ela comande a sua ação. E, nesse caso, ainda que coloquem uma pedra em cima da semente que germina, ela segue sua missão e encontra um caminho para a luz. E o caminho que precisa ser descoberto é como algo psiquicamente vivo, que a filosofia clássica chinesa denomina TAO. “É comparado a um curso de água que se movimenta inexoravelmente para a meta final”. “Estar dentro do TAO significa perfeição, totalidade, desígnio cumprido, começo e fim”. PERSONALIDADE É TAO.





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

BEIJAR, FICAR E OUTROS VERBOS ADOLESCENTES



           A Filosofia tornou-se disciplina obrigatória no Ensino Médio e, em escolas particulares, é ministrada desde os primeiros anos do Ensino Fundamental. Contudo, os livros didáticos de Filosofia abordam os temas universais que moveram e movem a humanidade, deixando em segundo plano as questões que movem os adolescentes e jovens. 
               "Beijar, ficar e outros verbos adolescentes", escrito por Ana Idalina Carvalho Nunes (Idalina de Carvalho), promove essa contextualização, lançando ideias filosóficas no cerne das questões adolescentes. Não se trata de um livro que ensina Filosofia, mas de uma obra que desperta o leitor   para a reflexão, para o ato de filosofar. 
               Aninha, a personagem principal, tem 15 anos e uma vida interior muito rica. Os inúmeros diálogos presentes no livro  consistem apenas em "pano de fundo" para as viagens interiores de Aninha, que analisa o meio, os amigos, a família e até mesmo a sociedade.  Ela aborda questões como o padrão de beleza feminina, trazendo à tona uma questão filosófica das mais antigas - o corpo e a alma. Qual a importância que se dá a uma e a outra nos dias de hoje? O livro aborda também a fenomenologia de Husserl e ainda outras correntes filosóficas. Entretanto, quem acreditar na possibilidade de encontrar uma citação filosófica no texto, ou mesmo uma discussão mais madura, sentir-se-á frustrado. Tudo dentro do livro é tratado em linguagem adolescente e sob a perspectiva de uma adolescente - o que não  não desmerece a discussão filosófica - pelo contrário, a linguagem e o tom informal do livro  tornam mais leve a relação da protagonista com os leitores, possibilitando um diálogo feito de percepções e afinidades, que os leva a também refletir e descobrir-se interiormente.
               Como os capítulos são breves, torna-se perfeitamente possível a utilização de fragmentos em sala de aula, tanto na disciplina de Língua Portuguesa, como também em Filosofia, ou ainda em Sociologia (já que aborda a instituição familiar de forma mais abrangente). Também pode ser útil para outras disciplinas, dependendo do projeto desenvolvido pelo educador. 
                 O  lançamento oficial do livro está  marcado para o dia 5 de março próximo, no Colégio Soberano de Cataguases, em evento que contará com  a apresentação musical do grupo "Cantáteis", que representará fragmentos  do livro, apresentando uma trilha sonora para Ana, Bernardo, Laís, Roberta, Carol, Bruno e todos os personagens desse livro, que vai agradar tanto aos jovens quanto aos adultos. O grupo Cantáteis, formado por Maria Tereza Werneck, Angélica Teodoro e Lucas Roberti, preparou, em 2014, um recital com música e a interpretação da poesia de Adélia Prado no Festival Literário de Rio Novo (MG). A grande Adélia, que estava presente, mostrou-se emocionada com a homenagem. 
Apresentação do  grupo "Cantáteis", com Maria Tereza Werneck,
Angélica Teodoro e Lucas Roberti.
               Publicado através da Lei de Incentivo à Cultura Ascânio Lopes, de Cataguases (MG),  o livro tem capa produzida por Letícia Nunes, 18 anos, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Os textos de apresentação da obra foram produzidos por dois jovens escritores identificados pelo PIDET (Programa de Identificação e Desenvolvimento de Estudantes Talentosos) da pós-graduação em Psicologia da UFJF. 
Letícia Nunes (projeto da capa)
Ana Idalina Carvalho Nunes (autora)
Informações:
Título: Beijar, ficar e outros verbos adolescentes,
Gênero: ficção juvenil.
Formato do livro: 14 x 21
Páginas: 112, brochura em branco e preto.
Capa: Cores com orelhas.
ISBN:978-85-918218-0-8
Edição do autor
Lei de Incentivo à Cultura Ascânio Lopes

Contato para palestras e desenvolvimento de projeto com lançamentos do livro em escolas:
 idalinadecarvalho@gmail.com

terça-feira, 22 de outubro de 2013

DIÁLOGO DE FORMATURA, OU SOBRE DÚVIDAS DE UMA COLAÇÃO DE GRAU

Por Ivan Bilheiro*

Caminhando pela ágora juizforana, o campus da UFJF, deparei-me com Sócrates (!): 
IVAN: Sócrates! Devo aos deuses a sorte deste encontro. Não sabes, naturalmente, mas há tempos por aí eu o buscava.
SÓCRATES: Não estava por aqui, por isso não me encontravas. Chegaste há tempos a esta casa?
IVAN: Sim. Estudo aqui. E ainda hoje irei ao Cine-Theatro Central, para a colação de grau. Estarei entre aqueles que se formarão em Filosofia.
SÓCRATES: Uma formatura em Filosofia?
IVAN: Sim.
SÓCRATES: Tempos estranhos são esses. Haverá uma cerimônia?
IVAN: Por Zeus que sim, Sócrates. Comemoraremos com os colegas esta etapa vencida.
SÓCRATES: E o que comemorarão?
IVAN: A conclusão de nossos estudos em Filosofia.
SÓCRATES: Falas de uma conclusão. Fale-me sobre isso.
IVAN: Depois de alguns anos dedicando-nos às leituras, às discussões e seminários, teremos, por fim, o reconhecimento dos esforços com a entrega de um diploma.
SÓCRATES: Os filósofos de hoje recebem diplomas?
IVAN: Não os filósofos, ó Sócrates. Estes são reconhecidos por suas reflexões. Os estudantes de Filosofia recebem diplomas.
SÓCRATES: E o que fazem os estudantes de Filosofia?
IVAN: Justamente, dedicam-se às reflexões daqueles verdadeiramente filósofos.
SÓCRATES: E conseguem ler tudo o que estes filósofos produziram?
IVAN: Isto seria impossível, Sócrates.
SÓCRATES: Então, se não entram em contato com todas as obras, ao menos com parte delas?
IVAN: Exatamente.
SÓCRATES: Se não fazem a leitura de todas as obras da Filosofia, mas somente parte delas, então dedicam-se a alguns fragmentos da Filosofia. Concordas?
IVAN: Não poderia negá-lo.
SÓCRATES: E o que é um fragmento, se não uma parte menor de um todo?
IVAN: É o que define o fragmento.
SÓCRATES: Estudando fragmentos, estudam partes, não chegam a compreender o todo. É o que fazem estes chamados estudantes de Filosofia?
IVAN: Eu o disse anteriormente.
SÓCRATES: Assim, não chegaram a compreender toda a Filosofia, mas iniciaram sua caminhada por ela.
IVAN: De pleno acordo, Sócrates. Só alguns fragmentos deste caminho é o que conquistamos.
SÓCRATES: Mas são estudantes. E o que fazem os estudantes?
IVAN: Creio que investigam, que se debruçam sobre as leituras, que buscam o saber, que lidam com as dúvidas e as usam como motor de seu trabalho.
SÓCRATES: Buscam conhecer, porque não conhecem ainda. É isso?
IVAN: Resumiste bem, Sócrates. É isso.
SÓCRATES: E estes estudantes estarão em festa hoje, porque serão diplomados?
IVAN: Acredito que sim.
SÓCRATES: Não sou deste tempo. Busco entendê-lo. Nada sei sobre a questão, mas investigo contigo, jovem. Dizias-me que tu e teus colegas são iniciantes na Filosofia, e que tomaram contato com uns poucos fragmentos desta grande área. Não era isso?
IVAN: Parece-me que sim.
SÓCRATES: Ainda afirmavas, há pouco, que os estudantes são aqueles que buscam conhecer, pois não conhecem. Na verdade, reconhecem sua ignorância, mas se dedicam no esforço de conhecer.
IVAN: Isto sim, Sócrates!
SÓCRATES: E os estudantes de Filosofia, enfim, que são eles? Seriam eles iniciantes de um caminho de dúvidas, já que começaram a trilhar uma área que pouco conhecem?
IVAN: Não compreendo bem o que dizes.
SÓCRATES: Pelas definições até então dadas, estes jovens com quem estarás hoje serão reconhecidos por seus esforços de dedicação à Filosofia.
IVAN: Serão sim.
SÓCRATES: E os esforços foram de estudo, o que é o buscar conhecer, ainda sem conhecer.
IVAN: É isso.
SÓCRATES: Estudaram o que pouco conhecem, porque reconhecestes que a Filosofia só foi fragmentariamente abordada por eles, certo?
IVAN: Não posso negá-lo.
SÓCRATES: Se estudam porque não conhecem, e ligam-se a uma área que pouco oferece de certezas, então angariaram mais coisas a investigar que conhecimentos.
IVAN: É este o cenário.
SÓCRATES: E a essa conquistas darão um certificado?
IVAN: É o que farão.
SÓCRATES: Serão diplomados por enveredarem por dúvidas?
IVAN: Parece que sim.
SÓCRATES: E o que comemorarão, então?
IVAN: Por Zeus, Sócrates! Já não sei mais o que comemoraremos!

* Ivan Bilheiro é licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), instituição na qual cursa a licenciatura na área. Especialista em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF) e pós-graduando em Ciência da Religião pela UFJF.
 

sábado, 18 de maio de 2013

ÉTICA A NICÔMACO



       O QUE É A ÉTICA PARA ARISTÓTELES   

Idalina de Carvalho         

 


Os gregos chamaram de ética à elaboração teórica que se ocupa dos costumes (moral), denominação que veio a ser consagrada. Para Aristóteles, a ética é uma das ciências práticas, isto é, relacionadas à ação, sendo as demais a política e a econômica. Nessa subdivisão, a ética aparece com o nome de sabedoria. No Livro I da “Ética a Nicômaco" dá proeminência à política que está definida nos textos que dedicou à matéria e foram preservados:

“Uma cidade, claro está, não é um simples amontoado para evitar as deficiências mútuas e intercambiar os serviços. Estas são duas de suas condições necessárias, mas que não determinam a cidade. Uma cidade é uma reunião de casas e de famílias para viver bem, isto é, para realizar uma vida perfeita e independente”. 
Isso quer dizer que Aristóteles não separa a política da moral, como se dá nos tempos modernos. Política e ética estão de certa forma superpostas, confundindo-se os objetos de ambas, porquanto a segunda trata das virtudes e dos meios de adquiri-las, sendo condição da felicidade, que, por sua vez, é o objetivo visado pela cidade.

A ÉTICA A NICÔMACO
O livro inicia com o questionamento sobre o que é o bem, afirmando também que todo indivíduo, bem como toda e qualquer ação ou escolha tem como objetivo um bem, e este bem é aquilo para onde todas as coisas tendem. E qual seria o mais alto de todos os bens? Segundo Aristóteles, a felicidade é a melhor, a mais nobre e mais aprazível coisa do mundo e, sendo considerada uma atividade da alma em consonância com a virtude (e não como riqueza, honra, prazer etc), ela precisa dos bens exteriores, porque não é possível realizar nobres atos sem os meios. Por conta isso, questiona se a felicidade é adquirida pela aprendizagem, pelo hábito ou adestramento; se é conferida pela providência divina ou se é produto do acaso.
     Se a felicidade é, dentre as coisas humanas, a melhor, pode-se assegurar que é uma dádiva divina. Mesmo que venha como um resultado da virtude, pela aprendizagem ou adestramento, ela está entre as coisas mais divinas. A felicidade é uma atividade virtuosa da alma; os demais bens são a condição dela, ou são úteis como instrumentos para sua realização.
O livro II da “Ética a Nicômaco”  aborda as virtudes em suas duas espécies: intelectuais e morais. De acordo com Aristóteles, as intelectuais são resultado do ensino e por isso precisam de experiência e tempo. Já as virtudes morais, são adquiridas pelo hábito – elas não surgem naturalmente em nós, são adquiridas pelo exercício, da mesma forma como acontece com as artes. É, de acordo com Aristóteles, pelas nossas ações na relação com  os outros que nos tornamos justos ou injustos – por isso é preciso estar atento para a qualidade de nossos atos:  já que tudo depende deles, desde a juventude é necessário criar o hábito de praticar atos virtuosos. É importante considerar que nas virtudes, o excesso ou a falta são destrutivos:  a exatidão está no meio-termo, o caminho do meio entre a deficiência e o excesso no que se refere às paixões, às virtudes morais. A virtude é meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.  Entretanto, nem toda ação e nem toda paixão admitem meio-termo:  há algumas ações ou paixões que implicam em maldade, como a inveja. Elas são más em si mesmas, nelas não há retidão, mas erro. É absurdo procurar meio-termo em atos injustos. Levando em conta que o estudo das virtudes tem como resultado a ação (e não o conhecimento da virtude), é necessário ressaltar a prática dos atos. É pela prática dos atos justos que se gera o homem justo, é pela prática de atos temperantes que se gera o homem temperante; é através da ação que existe a possibilidade de alguém tornar-se bom. Aristóteles prossegue, diferenciando as paixões e ações como voluntárias e involuntárias, mas não discorreremos sobre o assunto, para não alongar demasiadamente a explanação –  passaremos à especificação das virtudes morais e intelectuais.
Entre as virtudes morais – temperança, coragem, liberalidade, magnificência, o justo orgulho, a calma, a veracidade, a espirituosidade, a amabilidade, a modéstia, a justiça – esta última é considerada a virtude mais completa -  a justiça é considerada por muitos a maior das virtudes. A justiça é a disposição de caráter que torna as pessoas propensas a fazer o que é justo e a desejar o que é justo. É uma virtude completa por ser o exercício atual da virtude inteira, ou seja, aquele que a possui pode exercer sua virtude sobre si e sobre o próximo. Por isso se diz que somente a justiça, entre todas as virtudes, é o bem do outro, visto que é possível fazer o que é vantajoso a um e outro. O melhor dos homens é aquele que exerce sua virtude para com o outro, pois essa tarefa é a mais difícil.  
Vejamos abaixo  a apresentação das virtudes morais, através de quadro feito pela filósofa Marilena Chauí, em seu livro “Introdução à Filosofia – dos pré-socráticos a Aristóteles:
Anexo I: QUADRO DAS VIRTUDES MORAIS
Sentimento ou 
paixão
Situação em que
 o sentimento ou 
a paixão 
são suscitados
Vício (excesso)
Vício (falta)
Virtude (justo meio)
Prazeres
Tocar, ter ingerir
Libertinagem
Insensibilidade
Temperança
Medo
Perigo, dor
Covardia
Temeridade
Coragem
Confiança
Perigo, dor
Temeridade
Covardia
Coragem
Riqueza
Dinheiro, bens
Prodigalidade
Avareza
Liberalidade
Fama
Opinião alheia
Vaidade
Humildade
Magnificência
Honra
Opinião alheia
Vulgaridade
Vileza
Respeito próprio
Cólera
Relação com os outros
Irascibilidade
Indiferença
Gentileza
Convívio
Relação com os outros
Zombaria
Grosseria
Agudeza de espírito
Conceder prazer
Relação com os outros
Condescência
Tédio
Amizade
Vergonha
Relação de si com outros
Sem-vergonhice
Timidez
Modéstia
Sobre a boa sorte de alguém
Relação dos outros consigo
Inveja
Malevolêcia
Justa apreciação
Sobre a má sorte de alguém
Relação dos outros consigo
Malevolência
Inveja
Justa indignação
CHAUÍ, Marilena de Souza. Introdução à história da filosofia:dos pré-socráticos a Aristóteles, vol. 01. São Paulo: Brasiliense, 1994.

De acordo com Aristóteles, a parte racional da alma se divide em: científica (direcional ou prática) e calculativa (especulativa e teórica).  A calculativa é uma parte da alma que concebe um princípio racional, ela versa sobre coisas universais e teóricas, que não podem ser a não ser aquilo que são. O objeto da parte calculativa é a verdade, logo, para o conhecimento especulativo o bem se identifica com o verdadeiro e o mal com o falso. As disposições, pelas quais a alma possui a verdade, são cinco: a arte, o conhecimento científico, a sabedoria prática, a sabedoria filosófica e a razão intuitiva – que são as virtudes intelectuais. A arte (tkné) é idêntica a uma capacidade de produzir que envolve o reto raciocínio. Toda arte visa a geração e se ocupa em inventar e em considerar as maneiras de produzir alguma coisa que tanto pode ser como não ser, e cuja origem está no que produz, e não no que é produzido. A arte não se ocupa nem com as coisas que são ou que se geram por necessidade, nem com as que fazem de acordo com a natureza. A arte é uma questão de produzir e não de agir. No que se refere ao conhecimento científico (episteme), seu objeto é o necessário e eterno; toda ciência pode ser ensinada e seu objeto aprendido. O conhecimento científico é um estado que nos torna capaz de demonstrar, é quando um homem tem certa espécie de convicção, além de conhecer os pontos de partida, que possui conhecimento científico. É uma disposição em virtude da qual demonstramos. Sabedoria Prática (phrónesis) é característica de um homem que delibera bem sobre o que é bom e conveniente para ele. Mas o homem com essa sabedoria não procurar coisas boas somente para si, mas sabe deliberar sobre aquelas coisas que contribuem para a vida boa em geral. A sabedoria pratica é uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir com respeito às coisas que são boas ou más para o homem. A sabedoria Teorética ou Filosófica (Sofia) é a razão intuitiva combinada com o conhecimento científico, orientada para objetos mais elevados. É, dentre as formas de conhecimento, a mais perfeita; superior à sabedoria prática que tem como objeto as coisas humanas e diz respeito à ação; deveríamos possuir ambas as espécies de sabedoria, mas de preferência a sabedoria teorética. E, por fim, a Razão Intuitiva (nõus) consiste aquilo pelo qual aprendemos as últimas premissas de onde parte a ciência; ela aprende os primeiros princípios. Seu método é a indução, que apreende a verdade universal e a partir disso aparece como evidente a si.

QUESTÕES PRESENTES NA ÉTICA DE NICÔMACO: CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma questão importante abordada na ética aristotélica, em especial no livro “Ética a Nicômaco”, é a questão da responsabilidade. Para Aristóteles, "O homem é princípio e genitor de seus atos como o é de seus filhos" O princípio da responsabilidade baseia-se em duas pressuposições: a realidade é contingente (o futuro não está definido) e depende do indivíduo que age (o indivíduo é considerado autor de seus atos quando o ato depende dele). Essas são as duas exigências para que uma ação possa ser considerada virtuosa. O caráter é, para Aristóteles, resultado de nossos atos - vícios e virtudes não são simples traços psicológicos adquiridos, mas têm significado moral, porque pertencem ao campo daquilo que depende de nós.
Outro ponto importante é no referente à perfectibilidade do caráter: nesta abordagem há uma distinção a ser introduzida na questão da responsabilidade humana, de acordo com as palavras do filósofo: "não é da mesma maneira que as ações e o habitus são de pleno consentimento, nós somos senhores de nossos atos, do princípio ao fim…Mas dos nossos habitus, só somos senhores do princípio" O ato, na sua inteligibilidade, depende de mim, porque tenho um domínio sobre as conseqüências diretas desse último; em compensação, não posso antecipar precisamente todas as conseqüências indiretas dos hábitos que assumi.
A amizade é outra questão presente em “Ética a Nicômaco”, para a qual Aristóteles dedica dois livros (VIII e IX). Na totalidade da ética, para além dos livros sobre a amizade, muito pouco é dito no sentido de se sugerir que o homem pode e deve ter um interesse caloroso e pessoal pelas outras pessoas; o altruísmo está completamente ausente. Um homem deseja o bem do seu amigo por amor ao amigo, e não como um meio para sua felicidade. As várias formas de amizade mencionadas por Aristóteles constituem todas as ilustrações da natureza social essencial do homem. No plano inferior, necessita de amizades úteis . Num plano mais elevado, forma amizades por prazer, isto é, tem um prazer natural no convívio com os seus amigos. Num plano ainda mais elevado, constitui amizades por bondade, nas quais um amigo ajuda outro a viver a melhor vida.
No que tange à vida ideal, Aristóteles encara o bem-estar como uma atividade em conformidade com a virtude. Para Aristóteles, a contemplação constitui o ingrediente fundamental do bem-estar.O bem-estar deve ser uma atividade de acordo com a virtude da melhor parte de nós, ou seja, a razão; a atividade do bem-estar é teorética. É esta a melhor atividade que somos capazes, uma vez que é o exercício do melhor em nós sobre o melhor de todos os objetos, aqueles que são eternos e imutáveis. Segundo Aristóteles,  não devemos seguir aqueles que afirmam que, sendo nós homens, devemos limitar o pensamentos às coisas humanas. Devemos, na medida do possível, nos apoderarmos da vida eterna, vivendo a vida desta parte de nós, por ínfima que seja, que constitui a melhor e mais verdadeira de nós próprios. Quem vive assim é o homem feliz.
O que se mostra bem claro nesta obra de Aristóteles é a sua maneira de apontar uma  medida para todas as ações humanas, que é o justo-meio. A felicidade é definida como atividade da alma, dirigida pela virtude perfeita; é excelente e divina, mas não é presente dos deuses e nem produto do acaso, porque é preciso conquistá-la com muito exercício e muita prática da virtude. Para tanto é necessário indagar sobre a virtude e em que condição ela é um meio-termo para a felicidade. As virtudes morais consistem em ser um meio entre dois extremos viciosos; em toda quantidade é possível distinguir o excesso, o pouco e uma medida, que é o meio-termo; quando se trata de coisas, o meio-termo é aquele ponto que se encontra em igual distância entre dois pontos extremos, mas quando se trata do homem, o meio-termo é aquilo que não peca nem por excesso e nem por defeito, e esta medida muda muito e não é única para todos os homens. Como é difícil estabelecer o justo-meio em cada caso particular, deve-se deixar esta definição a uma pessoa sensata, que decida retamente; mas há casos em que não cabe estabelecer nenhuma medida, assim como em excesso não existe medida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Rosá. Col. Os pensadores. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1973..
CHAUÍ, Marilena de Souza. Introdução à história da filosofia:dos pré-socráticos a Aristóteles, vol. 01. São Paulo: Brasiliense, 1994.