sexta-feira, 21 de junho de 2019

A SÍNTESE DO CORPO PRÓPRIO - uma breve análise do capítulo quarto de "Fenomenologia da Percepção" de Maurice Merleau-Ponty


                                                                       Por Ana Idalina Carvalho Nunes*

Photograph of Maurice Merleau-Ponty}} |Source=http://www.philosophical-investigations.org/Users/PerigGouanvic/
Merleau-Ponty_and_the_Post-Modern_Non-Self |Author=http://www.philosophical-investigations.org/Users/PerigGouan

            Merleau-Ponty, no quarto capítulo de “Fenomenologia da Percepção”, fala do corpo que não é objeto; um corpo que é no tempo, no espaço e no movimento, sem ser a somatória de partes. É uma “síntese corporal”, ou seja, é um modo de unidade que não está sujeito a uma lei externa ao corpo. Esta síntese corporal torna possível a percepção daquilo que é oculto nos objetos e no próprio corpo. De acordo com Merleau-Ponty, na página 207, “Não traduzo os “dados do tocar” para “a linguagem da visão” ou inversamente; não reúno as partes de meu corpo uma a uma; essa tradução e essa reunião estão feitas de uma vez por todas em mim: elas são meu próprio corpo.” A unidade no corpo próprio quer dizer, com isso, afirmar que o corpo é um feixe de relações de existência, de sentidos que são ressignificados a todo momento, sendo que esta significação e também os sentidos novos que surgem dessa atualização existencial não são resultantes da acumulação de informações, mas de uma reconfiguração e atribuição de sentido dessas informações.
            Então, o visível e o invisível se relacionam numa reciprocidade visceral, não numa espécie de acumulação ou soma de partes objetivas e materiais, nem numa síntese abstrata de consciência transcendental. A linguagem poética não nos leva às representações absorvidas de sua concretude sensível, mas ao próprio movimento de um corpo que se faz pensamento e de um pensamento que se faz corpo. Merleau-Ponty, na página 209, segue com seu raciocínio, explicando que, da mesma forma como a fala não é significada só pelas palavras, mas também pelo sotaque, tom, gestos e fisionomia, assim também a poesia, sendo narrativa e significante, é também, essencialmente, uma modulação da existência. “Ela se distingue do grito porque o grito utiliza nosso corpo tal como a natureza o deu a nós, quer dizer, pobre em meios de expressão, enquanto o poema utiliza a linguagem, e mesmo uma linguagem particular, de forma que a modulação existencial, em lugar de dissipar-se no instante mesmo em que se exprime, encontra no aparato poético o meio de eternizar-se”. O poema, como qualquer obra de arte, existe como coisa e não subsiste pra sempre à maneira de uma verdade. De acordo com Merleau-Ponty, existe um entrelaçamento e, neste entrelaçamento não existe sentido no dualismo entre o corpo e a consciência, intelecto e percepção, sentido e forma expressiva. E, da mesma maneira que um poema existe como uma forma encarnada no contexto de sua expressividade, o nosso corpo existe e se exprime na sua esfera mais vital.
            Em outras palavras, é como  se houvesse a consciência de uma unidade de existência, em vez de uma “soma de sensações” que proporcionaria somente o saber em fragmentos, uma soma de partes do corpo. Na verdade, o saber que temos do nosso corpo é uma totalidade: o meu corpo inteiro se polariza numa ação e, para que isso aconteça,  é necessário que eu mova vários músculos a um mesmo tempo,  sem me preocupar em pensar  qual músculo eu movi. Há um entrelaçamento das diferentes partes do corpo.
            Finalizando, Merleau-Ponty  compara, na página 112,  o olhar com a bengala de um cego: “Com o olhar, dispomos de um instrumento natural comparável à bengala do cego. O olhar obtém mais ou menos da coisas segundo a maneira pela qual ele as interroga, pela qual ele desliza ou se apóia nelas.” E conclui que o nosso corpo não é um objeto do pensamento, mas um “conjunto de significações já vividas que caminha para o seu equilíbrio” .

 * Trabalho da disciplina de Antropologia Filosófica II, apresentada ao professor Juarez Gomes Sofiste, pela aluna Ana Idalina Carvalho Nunes (Graduação em Filosofia UFJF, jun. 2011)

COMO CITAR (de acordo com as regras da ABNT)


NUNES, A. I. C. O ser humano e o conhecimento em Aristóteles. Artigos de Filosofia. Juiz de Fora, 21 jun. 2019. Disponível em: https://artigosfilosofia.blogspot.com/2019/06/a-sintese-do-corpo-proprio-uma-breve.html . Acesso em: (data do acesso).







quarta-feira, 19 de junho de 2019

O QUE É A ETNOMETODOLOGIA?

por Ana Idalina Carvalho Nunes

Harold Garfinkel. Disp. em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Harold_Garfinkel.jpg

Trabalho da disciplina"Retórica, Racionalidade e ação: modelos linguísticos", apresentado ao prof. dr. Raul Francisco Magalhães, durante o mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGCSO/UFJF, 2016)


1. Introdução


          O presente artigo tem como objetivo lançar um olhar sobre a etnometodologia, abordagem sociológica qualitativa criada por Harold Garfinkel na década de 1960 para analisar os fenômenos sociais que envolvem a fala e a ação. A estrutura do texto trará, na ordem exata aqui apresentada, o contexto histórico do surgimento da etnometodologia, os conceitos e elementos constitutivos da teoria e a sua aplicabilidade no campo da pesquisa científica.
          Inicialmente, é importante considerar a obra de Garfinkel que simboliza o marco inicial da etnometodologia na sociologia americana é Stuties in Ethnomethodolgy, publicada em 1967. Trata-se de um livro composto por oito capítulos que trazem estudos exploratórios onde o autor tenta situar o ponto mais firme de sua trajetória intelectual, expondo para a sociologia um fenômeno que, embora pareça óbvio demais, é ignorado nas reflexões dos cientistas sociais: a realização cotidiana da vida social. De acordo com o prefácio da edição brasileira do livro de Garfinkel,

O simples fato de as pessoas se cumprimentarem, seguirem regras de trânsito, ou confiarem em uma instrução dada por um professor implica estruturas de ação que são postas em movimento, sem que ninguém se dê conta de sua complexidade e da suposição de que tais regras estão igualmente operantes nas mentes e corpos dos outros. Se essas ideias nos parecem normais dentro do escopo geral de certa teoria social contemporânea, não se pode dizer o mesmo ao final dos anos 1960, quando Garfinkel desafiava o pensamento sistêmico dominante na sociologia, aquele que partia do pressuposto de que os indivíduos agem por regras que são internalizadas (GARFINKEL,2014, p.8)
           
          Segundo a etnometodologia, apesar do impacto do caráter imperativo das regras sociais sobre os indivíduos, para analisar a vida social é preciso avaliar o contexto em que as ações e as falas ocorrem na vida cotidiana. Partindo desse princípio, a etnometodologia apresenta uma crítica ao modo como são realizadas as pesquisas quantitativas - que focam no registro de dados, deixando em segundo plano o processo como esses dados são constituídos - traz a hipótese de que o resultado obtido na pesquisa sociológica da escola tradicional não consegue traçar um retrato fiel da realidade, já que não apresenta o modo como essa realidade foi construída. Através dessa crítica, a etnometodologia rompe com a sociologia tradicional, apontando que todos os indivíduos podem ser considerados como sociólogos, na prática, e que os grupos sociais aos quais esses indivíduos se integram são capazes de compreender, descrever, comentar e analisar a si mesmos. Partindo dessa premissa, a etnometologia utiliza-se dos etnométodos, para interpretar e colocar em ação na rotina das suas atividades do dia a dia as práticas que possam lhes permitir o reconhecimento do próprio mundo. Esses etnométodos contribuem para que seu mundo se torne familiar e possibilitam que as pessoas possam construí-lo cotidianamente. Essa descrição, interpretação e construção do mundo social pelas pessoas é o objeto de estudo da etnometodologia . Privilegiando a abordagem microssociológica, ela lança luz sobre as interpretações, trazendo para o centro das discussões o ator, que passa a ser visto como autor, já que ele constrói, a partir das interações sociais, o seu mundo social. O entendimento de mundo que esse indivíduo apresenta é o centro da pesquisa etnometodológica.

2. Contextualização da etnometodologia de Harold Garfinkel

          Harold Garfinkel recebeu influência direta de dois nomes, em especial, no desenvolvimento de suas teorias: Talkott Parsons e Alfred Schütz. Do primeiro, ele foi aluno no Departamento de Relações Sociais na Universidade de Harvard. Entretanto, embora tenha iniciado sua carreira sob a supervisão de seu mestre, Garfinkel recebeu uma maior influência de Schütz, cujas teorias lhe serviram como ponto de referência para os seus estudos posteriores. Garfinkel foi professor emérito na Universidade da Califórnia, Los Angeles até a sua morte, em 21 de abril de 2011.
           É importante destacar que, no período do surgimento da etnometodologia, o mundo todo, especialmente a sociedade dos Estados Unidos, passava por grandes transformações em sua estrutura, com a emergência de discussões ideológicas e políticas envolvendo questões sociais e econômicas – levantando questionamentos sobre a posição do indivíduo na sociedade, que passava a ser visto como livre para mudar a direção do cenário social da época. Esse contexto justifica a preocupação de Garfinkel em estudar as ações e as falas das pessoas comuns e utilizar tal análise para compreender a organização social. 
           A quase totalidade da produção científica de Garfinkel foi publicada em artigos e relatórios que se transformaram, posteriormente, em capítulos de livros. Assim, para compreender o desenvolvimento de suas ideias, é preciso contextualizá-las no tempo. “Vendo sociologicamente”, por exemplo, publicado em 2006, na verdade foi produzido dois anos antes de sua ida para Harvard e consistia num esboço que fizera de seu projeto da dissertação. Outro dos seus artigos, intitulado “Rumo a uma teoria sociológica da informação”, igualmente foi escrito no período em que Garfinkel era estudante. Serviu-lhe, neste artigo, como base, um relatório escrito conjuntamente com o Projeto de Comportamento Organizacional na Universidade de Princeton, em 1952. “Estudos em Etnometodologia” reuniu alguns dos primeiros estudos de Garfinkel sobre o assunto. E esse processo de reunir textos escritos anteriormente, publicados ou não, se deu em outras obras de Garfinkel que surgiram depois. 
           É necessário ainda, para compreender as ideias de Garfinkel, lançar luz sobre as teorias de seu mestre Talcott Parsons e de Alfred Schütz , o criador da fenomenologia social, os dois nomes que exerceram a mais forte influência sobre ele na construção de sua teoria. Discordante das ideias de Parsons, Garfinkel buscou desenvolver argumentos que pudessem fundamentar suas críticas, especialmente no referente à teoria de “dinâmica social” de seu mestre. O grande questionamento de Garfinkel no referente às ideias de Parsons se referiam aos paradigmas normativos da ação humana que, para seu mestre, levavam em conta, prioritariamente, a regulação apriorística das atividades da conduta humana. A dúvida de Garfinkel consistia em identificar qual racionalidade poderia ser imprescindível para a conduta humana, dentro no pensamento de Parsons que, tendo em suas ideias a marca do pensamento neokantiano, acreditava na neutralidade quase total da cognoscitividade na
conduta dos indivíduos. Para Parsons, o que servia de norte para as pessoas seria uma acentuada racionalidade científica, através da qual as suas ações seriam definidas e definiriam também as regras de conduta dentro da sociedade. Dentro desse quadro, as motivações dos atores se mostravam integrados em paradigmas normativos reguladores das ações sociais, existia um tipo de sistema que se mostrava interiorizado e governava ações e pensamentos dos indivíduos. 
           Na teoria de Parsons, o paradigma normativo é visto como base da ação social, numa dinâmica em que o ator se apresenta como indivíduo não reflexivo e incapaz de analisar sua relação de dependência com as normas sociais, se submetendo a essas regras que, por sua vez, tornam-se determinantes na sua conduta. Garfinkel, ao contrário de Parsons, constrói sua teoria, partindo do pressuposto de que a interação entre o ator e a situação não se funda em normas predeterminadas nem a conteúdos culturais. De acordo com ele, a interação é formada por processos de interpretação, e a base da ação social é o paradigma interpretativo, que tem na reflexividade a condição primeira para o entendimento da ordem social. Ou seja, as normas existem, estão presentes na sociedade e exercem influência sobre o indivíduo – mas o indivíduo interage com essas normas e, a partir dessa interação, ele as interpreta e as modifica para se ajustar a elas, atuando como sujeito que constrói a própria realidade. 
        Enquanto Parsons vê a racionalidade científica como norteadora da conduta humana, para Garfinkel , o que a guia é a realidade prática e o conhecimento de senso comum. Em outras palavras, o conhecimento de senso comum, para ele, consiste no elemento básico para se compreender a ação social, e a interpretação dos indivíduos está no alicerce desse elemento. Garfinkel vê na teoria da ação social de Parsons um grave problema: os indivíduos ali definidos teriam um juízo adormecido, seriam meros reprodutores das estruturas sociais normativas, dentro de um determinismo absoluto. Em resumo, para desenvolver sua crítica, Garfinkel buscou substituir o paradigma positivista de Parsons por um modelo de interpretação da ação humana, considerando o papel da linguagem e da intersubjetividade na conduta social (HERITAGE, 1999, p. 356-357).
          No referente às influências recebidas de Alfred Schütz, pode-se perceber que Garfinkel trouxe para a sua etnometodologia a ideia de reciprocidade das perspectivas. De acordo com essa teoria, o mundo social é o espaço da vida cotidiana marcado pela intersubjetividade e, mesmo diante das diferenças que marcam a vivência de cada indivíduo (já que cada um tem a própria maneira de interpretar a vida), e ainda sabendo que a posição que cada indivíduo ocupa na sociedade lhe permite apreender e interpretar a realidade de uma forma diferenciada, pode-se afirmar, sem dúvida, que todas as experiências são idênticas na prática.
          Citando como exemplo o ambiente escolar, analisando a posição que ocupam a diretora, a professora e os alunos, é possível perceber que cada qual vê as situações de uma maneira diferente e que a apreensão e interpretação de um determinado fato vai estar intrinsecamente ligada à posição que cada um ocupa. Isso torna claro o fato de que a percepção é subjetiva. Contudo, ainda que tais visões sejam diferentes, existe um tipo de conhecimento do real que todos compartilham através da empatia (buscando se colocar no lugar do outro para saber o que sentem e pensam) e também através de um tipo de idealização sobre as razões pelas quais professora, diretora e alunos estejam presentes na escola – os atores idealizam que o motivo que leva todos à escola é o mesmo. É através desse ajuste que se torna possível a interação necessária para a construção do mundo social que, desta forma, é constituído intersubjetivamente. Vale ressaltar que esse processo de constituição subjetiva do mundo social sofre constantes atualizações, já que a identificação entre os indivíduos dos grupos sociais é renovada de maneira constante. Através da continuidade desse processo é que os objetos do mundo social se tornam familiares e são, desta forma, mantidos sob uma forma tipificada que caracteriza também como tipificado o conhecimento ali construído, diante do qual os agentes conseguem analisar o seu mundo social, ainda que de maneira aproximada e aberta a revisões – o que não prejudica a sua utilização como paradigma para que se organize a ação. É importante, no entanto, destacar que a teoria etnometodológica de Garfinkel não é o desenvolvimento mais amplo da Fenomenologia Social de Schütz. A etnometodologia apenas se apropriou de alguns pressupostos da fenomenologia para desenvolver suas teorias acerca da compreensão da realidade por meio dos raciocínios da prática cotidiana, utilizando-se da intersubjetividade. Entre essas apropriações, podemos citar seis elementos:

i) as pressuposições de se pôr entre parênteses os fenômenos e as teorias sobre o mundo social, mantendo com isso uma atitude de indiferença etnometodológica para com elas; ii) a requisição de uma fidelidade para com o fenômeno em estudo; iii) a aceitação das qualidades humanas de pensamento, razão, emoções e agregados sensíveis, planejamento, julgamentos, e conhecimentos presentes nas ações humanas; iv) rejeições a prescritividades e pré-formulações de métodos e estratégias de análise metodológicas, diante da singularidade de cada fenômeno social abordado; v) cuidado na manutenção dos aspectos fidedignos das descrições dos métodos práticos dos membros nos seus atos de falar e de agir no mundo cotidiano; e vi) abandono de monismos causais nas explanações analíticas a que se prestam seus estudos (PSATHAS, 2004 apud OLIVEIRA;MONTENEGRO, 2012, p. 133).

          Convém ainda lembrar, a partir da observação dos elementos acima apresentados, que a epoché (colocação em suspenso) das ideias acerca do mundo social favorece ao pesquisador uma maior aproximação da realidade em sua essência, já que o mundo, conforme aponta Maurice Merleau-Ponty no prefácio do seu “Fenomenologia da percepção”, “o mundo é não aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo; eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável” (MERLEAU-PONTY,1999, p. 14). Ou seja, para possibilitar uma maior aproximação da realidade enquanto construção social, é indispensável a observação, tanto do conhecimento do senso comum como das razões práticas dos indivíduos dentro dos grupos sociais.
          De acordo com Garfinkel, (2015, pp. 55-56), compartilhar conhecimento sobre a  estrutura social não leva ao entendimento comum. Esse entendimento consiste “no caráter obrigatório de ações realizadas conforme as expectativas da vida cotidiana como uma moralidade”. Segundo ele,

O conhecimento de senso comum dos fatos da vida social, para os membros da sociedade, é o conhecimento institucionalizado do mundo real. Não só o conhecimento de senso comum retrata uma sociedade real para os membros, mas, à maneira de uma profecia que se auto-cumpre, as características da sociedade real são produzidas pela obediência motivada de uma pessoa a essas expectativas contextuais. Daí, a estabilidade das ações concertadas deveria variar diretamente em função de quaisquer que fossem as condições reais de organização social que garantam a adesão motivada de uma pessoa a essa textura contextual de relevâncias como uma ordem legítima de crenças sobre a vida em uma sociedade vista “do interior” da sociedade. Visto do ponto de vista da pessoa, seu comprometimento com a obediência motivada consiste em sua compreensão e aceitação dos “fatos naturais da vida em sociedade” (GARFINKEL, 2015, pp. 55-56)

           Esse conhecimento do senso comum, aliado às razões práticas dos agentes sociais legitimam a realidade social, já que ela traz em si o aspecto objetivo e o intersubjetivo que a envolvem de uma quase materialidade que cria a possibilidade do convívio entre os indivíduos através da criação de uma rede de significados comuns criados a partir do conhecimento dos indivíduos e nos paradigmas do mundo social, favorecendo, por sua vez,  que ocorra a interação intersubjetiva entre os indivíduos que participam do mundo.
         Também ligado à ideia da constituição do mundo social como uma interação mútua entre o plano objetivo e o pano subjetivo, onde os indivíduos se posicionam como atores que constroem o seu mundo social, está o Interacionismo Simbólico. Sua influência, especialmente através de Herbert Mead, se constitui, ao lado da Fenomenologia Social de Husserl, como um dos pilares da Etnometodologia de Garfinkel, especificamente no que se refere à significação das ações e falas dos atores em relações de interação. De acordo com Coulon, mesmo quando sob a influência de normas estabelecidas socialmente, essas ações e falas “nunca são definidas unilateralmente, muito menos reificadas objetivamente, mas sempre são sustentadas comportamentalmente em processos de negociação de significados” (COULON, 1995 apud OLIVEIRA;MONTENEGRO, 2012, p. 134).
  A diferença entre a abordagem interacionista e a etnometodológica consiste, especialmente, no ponto do interacionismo que trata da “atitude natural” diante dos fenômenos. De acordo com esta abordagem, é necessário que o pesquisador deve estar presente fisicamente e presenciar os fenômenos, sob o risco de conseguir registrar apenas “resíduos” da ação social. Entretanto, não raro tal atitude leva o pesquisador a se envolver e se identificar totalmente com os membros do grupo, passando a assumir uma “atitude natural” frente aos fenômenos.
A etnometodologia diverge do interacionismo por discordar dessa “atitude natural”. De acordo com Coulon,

Com efeito para praticar a etnometodologia, devemos adotar um certo estado de espírito, deixarmo-nos penetrar pelo estranhamento das coisas e acontecimentos que nos rodeiam, tentar subtrairmo-nos à força da, atitude natural‟ que apresenta uma tendência constante para levar a melhor” (COULON, 1995 apud FIGUEIREDO, 1998)

          Ou seja, a proposta da etnometodologia é justamente deixar de lado a familiaridade na relação com os atores sociais, sob a recomendação de que a identificação total com os membros acaba levando à perda do senso crítico de que o pesquisador necessita para interpretar a maneira como os atores sociais constroem a realidade. A “atitude natural”, de acordo com a etnometodologia, acaba impregnando a percepção do pesquisador, prejudicando a neutralidade de suas conclusões.

3. Conceitos e elementos constitutivos da teoria etnometodoló-gica

           Constituindo-se como a pesquisa empírica dos métodos de que as pessoas se utilizam para dar sentido e agir cotidianamente, interpretando as crenças e a conduta do senso comum como imprescindíveis para a construção da realidade social, a abordagem etnometodológica apresenta, como conceitos-chave: prática ou realização, indicialidade, reflexividade, relatabilidade, e a noção de membro, que serão explicados a seguir. 

          3.1. Por “Prática ou Realização”, a etnometodologia quer apresentar o contexto onde se constrói a realidade social. Essa realidade é produzida na prática cotidiana, por meio da interação entre os atores; a partir dessas operações micro é que acontecem as grandes  mudanças sociais, num plano macro. De acordo com Garfinkel (2012, p. 114) “seus praticantes insistem que as práticas da análise construtiva são realizações dos membros”. E essa ideia de realização adotada por ele na sua etnometodologia se refere à construção continuada de práticas pelos agentes sociais. Trata-se de um processo permanente e contínuo, onde as regras e as normas são vistas como construções capazes de definir e tornar claros os raciocínios sociais práticos, bem como os métodos que os agentes sociais usam na realização de suas interações sociais que dependem, por sua vez, da maneira como eles interpretam o mundo.

           3.2. Por “Indicialidade” entende-se o caráter incompleto de que a palavra é dotada, de forma que só é possível compreender seu significado a partir da consideração do contexto no qual ela está situada. Pode-se afirmar que todas as expressões utilizadas pelos indivíduos nas relações de interação estão permeadas por características indiciais (ou indexicais), e essas expressões só podem ser significadas através do conhecimento no contexto no qual são proferidas. Por este motivo é que um pesquisador não pode jamais tentar traduzir o que diz o ator, não pode substituir palavras proferidas por outras mais objetivas. Ao contrário disso, para conseguir compreender o processo de produção das ideias ele deve buscar analisar o contexto onde essas expressões são produzidas. 
          Entretanto, Garfinkel destaca que a utilização das expressões indexicais não existe só dentro das narrativas de pessoas leigas. De acordo com ele, essas expressões também podem ser encontradas em 

relatos de profissionais. Por exemplo, a “fórmula” em linguagem natural “a realidade objetiva dos fatos sociais é o princípio fundamental da sociologia” é ouvida por profissionais, de acordo com a ocasião, como definição das atividades dos membros da Associação, seu slogan, sua tarefa, meta, realização, motivo de ostentação, conversa de vendedor, justificativa, descoberta, fenômeno social ou limitação de pesquisa (GARFINKEL, 2012, p. 224).

            Desta forma, o que o raciocínio prático das Ciências Sociais faz é suprir as propriedades indexicais do discurso, demonstrando a relatabilidade racional das atividades do dia a dia, com a finalidade de garantir a adequada observação, bem como o relato das particularidades da organização social cotidiana. 

          3.3. O terceiro entre os conceitos da etnometodologia é a “Reflexividade”, mesmo não tendo consciência disso, os atores descrevem e constroem, simultaneamente, a realidade social quando falam. Ou seja, reflexividade consiste nas práticas que descrevem e constituem o quadro social, ao mesmo tempo. De acordo com a etnometologia, os atores têm a reflexividade como uma capacidade, embora a capacidade de reflexão não lhes seja inerente, no sentido de que eles aplicam metáforas em seu dia a dia e essas metáforas reificadas fazem com que tudo aquilo que veem não seja notado. Desta forma, é através da sua institucionalização que o conhecimento que o senso comum tem dos acontecimentos sociais se legitima como conhecimento do mundo real.
          Pode-se, assim, definir  a reflexividade como uma propriedade das práticas sociais, que favorece a descrição, constituindo um quadro social específico. Observa-se, a partir de então, que as atividades que os membros realizam com o objetivo de produzir e manobrar diariamente as circunstâncias de sua vida organizada são análogas aos procedimentos que utilizam para tornar descritíveis essas mesmas situações.

          3.4. A “Relatabilidade”, conceito que tem uma estreita ligação com a ideia de refexividade, é o quarto conceito da etnometodologia. Embora se refira à propriedade das descrições que os atores fazem da realidade, a relatabilidade não consiste numa simples e pura descrição da realidade, mas uma descrição que constrói o mundo. A questão da relatabilidade é considerada primordial na etnometodologia, tendo em conta que, muito mais que apresentar os métodos utlilizados pelos membros para tornar relatáveis as suas experiências, esses membros também lançam mão dos mesmos métodos para conseguir uma ordenação social. São os relatos desse mundo social que fazem da ação dos membros do grupo algo compreensível, expondo o seu sentido a partir do momento em que conta ao outro os processos do próprio relato, fazendo do mundo algo visível. Em outras palavras, pode-se dizer que a relatabilidade se refere à característica de tornar inteligível uma ação e, ao mesmo tempo, de explaná-la, já que os membros devem, ao mesmo tempo, realizar suas ações e dotá-las de clareza para que seu sentido seja imediatamente identificado ou explicável.

           3.5. Por fim, é importante trazer a noção de “membro”, esclarecendo, primeiramente, o seu sentido, de acordo com Garfinkel e Sacks: 

Não empregamos o termo “membro” com referência a uma pessoa. Refere-se, sim, ao domínio da linguagem natural, o qual entendemos da seguinte maneira. Observamos que as pessoas, na medida em que estão falando uma linguagem natural, de alguma forma estão envolvidas na produção objetiva e exposição objetiva de conhecimento de senso comum de atividades cotidianas como fenômenos observáveis e relatáveis (GARFINKEL;SACKS, 2012, p. 227).

          Ou seja, de acordo com eles, a noção de membro não se relaciona com a ideia de articulação entre o indivíduo e seu grupo social, mas sim à utilização da linguagem comum que leva o indivíduo a pertencer ao grupo. Frisam que é universalmente comum que os membros façam uso de “fórmulas destinadas a remediar o caráter indexical de suas expressões e, mais concretamente, procuram substituir as expressões indexicais por expressões objetivas” (GARFILKEL;SACKS, 2012, p. 227).
          Para Coulon, “membro” consiste em uma pessoa “dotada de um conjunto de procedimentos, métodos, atividades, savoir-faire, que a tornam capaz de inventar dispositivos de adaptação para dar sentido ao mundo que a rodeia” (COULON, 2005 apud BISPO;GODÓI, 1998, p. 684). Em outras palavras, o membro consegue, sem grandes problemas, resolver a questão da indicialidade nos discursos para identificar os padrões do senso comum. Para tornar mais fácil a compreensão, pode-se utilizar como exemplo, a situação de um senhor de grande nível intelectual, de idade avançada e de classe social elevada que quisesse se reunir com adolescentes membros de grupos marginalizados de uma região de periferia. Dificilmente ele conseguiria interagir nessa conversa, pois muitas expressões indiciais não seriam compreendidas por ele (quebrada, véi, correria, o preto e o branco, cracudo, entre outras). Mas isso não quer dizer que a interação seria impossível: os atores buscariam padrões para conseguirem ser entendidos e o homem de idade avançada, que não foi considerado membro naquele primeiro momento, vem a se tornar membro através da apropriação do discurso. Só a partir do momento em que conseguimos chegar, segundo Coulon, “sem demasiada dificuldade, a um acordo sobre a significação de nossas ações, apesar da infinita indicialidade das trocas conversacionais e das situações sociais”, é que nos tornamos membros”. (COULON, 1995, p.161).
          Assim, o indivíduo que domina a linguagem natural do grupo e que, através desse domínio, consegue descrever e construir o mundo que o grupo percebe conjuntamente, é considerado um membro passa a interagir com os membros do grupo, construindo a realidade dentro das interações cotidianas. Para regular suas práticas, os atores procuram identificar o entendimento que o outro tem da realidade, promovendo uma busca recíproca, que se dá através de quatro procedimentos, a saber: a reciprocidade das perspectivas (a troca de visões de mundo e pontos de vista); a cláusula “et caetera” (um tipo de acordo verbal através do qual o grupo assume que existem significações e compreensões comuns, mesmo quando estas não são esclarecidas. Ex: a utilização do “etc.” para resumir o que não chegou a ser falado); os padrões do senso comum (produzidos pelos atores para promover entendimento entre o grupo); e, por fim, o caráter prospectivo e retrospectivo dos acontecimentos (expressões que, ora antecipam falas, ora trazem à tona falas do passado, com objetivo de tornar mais clara a comunicação).
          É importante também ressaltar que, nas interações que ocorrem dentro dos grupos, há uma regulação do discurso, com cinco regras precisas: a) dispositivos de mudança de turno; b) fenômenos de reparação; c) unidades interacionais: os pares adjacentes; d) estratégia de envolvimento; e) organização estrutural hierárquica da interação discursiva. Tais regras serão detalhadas a seguir:
          
          a) Os dispositivos de mudança de turno tratam das normas estabelecidas pelos próprios atores, com o objetivo de ordenar a interação. Tais normas determinam e limitam o tempo de fala de cada interlocutor, especificando o tempo de falar e o tempo de ouvir dentro da interação, a fim de garantir o sucesso da interação, evitando uma fala longa demais ou um silêncio demasiadamente longo entre uma e outra fala. A situação pode ser exemplificada, utilizando a letra “L” como um dispositivo que indica o final de um turno identificado como “AB”, ou seja, “L” é o sinal para que o outro comece a falar e aparece sempre que existe uma interrogação. Desta forma, fica claro que o número de repetições do “L” indica sucesso na interação:
                    
                       AB: Gostaria de saber sobre a vida na prisão. (...)
                            Qual foi a sua reação na primeira noite que dormiu na cela?
                        L: Eu fiquei acordado a noite inteira (continua)

          b) A segunda regra de regulação do discurso trata dos fenômenos de reparação, que consistem em corrigir as falhas cometidas nas falas dentro da interação. Essa correção tanto pode ser feita por aquele que falou como pelo que ouviu. No caso apresentado abaixo, é o enunciador que corrige a própria fala:
              
                       AB: Quantos empregos você teve antes de ser preso?
                          L: Nenhum. Ou melhor, trabalhei em dois lugares, mas sem carteira assinada.

          c) A terceira regra está voltada para as unidades interacionais: os pares adjacentes que, segundo a etnometodologia, são sequências de enunciados duplos que os falantes produzem, cada um na sua vez de falar, sendo que, ao ser enunciada, a primeira parte depende da seguinte para completar seu sentido. Os enunciados podem ser denominados como preferenciais ou não preferenciais: no primeiro caso, a fala é produzida sem hiatos; no segundo, o falante prossegue a sua fala depois de uma pausa marcada por expressões específicas como, por exemplo: “bem...”, “ah”, entre outras. Ex:.

                         1.AB: É possível estabelecer amizades dentro da prisão?
                               L: Sim, a gente conhece muitos mano legal.
                         2.AB: E você confia nesses amigos?
                               L: Sim (...) mas sempre desconfiando.

           d) A estratégia de envolvimento é a quarta regra e consiste na observação da construção da narrativa e da enumeração como recursos para que o grupo se envolva e ocorra uma interação. Dentre essas estratégias de envolvimento os atores utilizam repetições, antíteses, lançam mão da ironia e de outros recursos para envolver o participante, e é esse envolvimento que facilita a interação discursiva, tornando-a agradável, conforme se pode perceber no diálogo abaixo:

          - Vivi minha vida toda em busca do homem ideal e, enfim, te encontrei. Você fala demais, é ansioso, requer sempre muita atenção, não lembra das datas importantes, é descuidado, não sabe lidar com a minha TPM, mas me faz sentir uma deusa, a mulher mais linda do mundo. Você é insubstituível.

          Vale ainda ressaltar que, através da utilização de recursos poéticos como a repetição, antíteses, elipses, metáforas, por exemplo, o envolvimento discursivo elabora os estados emocionais na interação, que tanto podem trazer um efeito positivo como um negativo: é positivo quando a fala ajuda a tornar mais intensa a relação entre os membros, e considera-se negativa a fala que traz o rompimento de relações entre eles. 

          e) Para finalizar esta exposição sobre a regulamentação da atividade discursiva na etnometodologia, este breve estudo traz a quinta regra, que trata da organização estrutural hierárquica da interação discursiva. Essa organização aborda as regularidades semânticas, sintáxicas e pragmáticas que norteiam os participantes em determinada interação, obedecendo uma organização hierárquica que apresenta cinco níveis distintos: interação, sequência, permuta, intervenção e ato de linguagem – sendo que a interação é o nível mais elevado e o ato da linguagem consiste no nível elementar. Com exceção da interação e do ato da linguagem, cada um dos outros níveis é constituído pelo nível que está acima e, por sua vez, constitui o nível que está abaixo dele.
           É importante destacar que, na abordagem etnometodológica do discurso, a utilização dos citados métodos e procedimentos é feita pelos próprios membros do grupo, para dotar de significado as suas práticas sociais. E o sentido do discurso está na atividade que as pessoas realizam em conjunto no decorrer da vida cotidiana, já que, nessas interações discursivas, os indivíduos lançam mão de conhecimentos do senso comum e os partilham mutuamente, construindo e reconstruindo incessantemente o mundo. Assim, quando utilizam-se da fala para comunicar, os indivíduos interagem e o sentido da fala de um vai depender diretamente do contexto da interação e das falas dos outros indivíduos. Em suma, a atividade discursiva consiste numa atividade ordenada e regulada e é essa característica que torna possível a sua identificação e o seu inventário, a sua descrição e sistematização. 
          A partir do acima exposto, fica claro que o pesquisador que pretender utilizar-se do método etnometodológico em seus estudos, deve, primeiramente, manter um foco nos métodos utilizados pelos participantes para significar seu mundo, abdicando de suas próprias hipóteses e concepções; ou seja, o pesquisador não deve levar prontas as suas perguntas para o campo, mas deve formulá-las a partir do contato com o grupo. Para conseguir isso, deve-se lançar mão da epoché de Husserl, ou seja, deve deixar em suspenso os próprios conceitos para conseguir perceber melhor as práticas cotidianas dos participantes e entender a significação e o sentido dessas práticas para os membros do grupo, botando em prática a “indiferença etnometodológica”, maneira como Garfinkel nomeia esse processo.
          Por fim, cabe ressaltar que o etnometodólogo deve manter uma postura crítica diante dos seus estudos, fiscalizando o próprio olhar, a maneira como observa e analisa as falas, de maneira a interferir o menos possível, evitando se deixar guiar pela sua própria visão de mundo, o que poderia prejudicar o relato daquilo que ouve, vê e analisa. Esta última recomendação é de fundamental importância, principalmente tendo em vista o bombardeio de informações e opiniões que o pesquisador recebe cotidianamente, seja através dos meios de comunicação ou de leituras e conversas. Numa sociedade em que grande parte dos indivíduos ficam conectados à internet 24 horas por dia, a própria ideia de “realidade” muda rapidamente de sentido, já que passa por interações e mediações o tempo todo. 

Considerações finais 

        A partir de tudo o que foi apresentado acerca do método etnometodológico e sua  aplicação na pesquisa, conclui-se a importância desta abordagem para diferentes organizações. Na pesquisa sociológica, os estudos etnometodológicos apontam para a natureza das organizações enquanto resultado de uma realidade que foi socialmente constituída, a partir de interações entre seus membros dentro de um contexto marcado pela intersubjetividade no compartilhamento de significados. A partir desse compartilhamento, torna-se possível perceber que as ações assumem importância e significado.
          Tomando como exemplo o estudo de prisões, levando em consideração que se trata de uma instituição constituída pelos seus membros em suas práticas cotidianas, e que ela só existe a partir desses indivíduos em um processo de construção e reconstrução incessantes, torna-se possível compreender que o significado da prisão enquanto fenômeno está intrinsecamente relacionado com o lugar que ocupa e o sentido que adquire no mundo cotidiano de presidiários e funcionários. Também torna-se claro que, para compreender o fenômeno “prisão” é preciso olhar para ele teórica e metodologicamente da maneira adequada, ou seja, buscando, através da fala e das ações práticas da vida cotidiana daquele grupo social, o significado que é construído para o fenômeno.
          A etnometodologia, aplicada em organizações complexas como a acima citada, favorecendo uma aproximação maior do fenômeno, tente a trazer grande contribuição para o campo das Ciências Sociais, no sentido de possibilitar a compreensão desses grupos complexos.
           Para finalizar este breve estudo, é preciso frisar que, ao se fixar na análise da fala nas interações, a etnometodologia acaba abarcando um universo amplo de possibilidades de análise, já que a fala está presente na maioria das ações humanas. Seja na análise da interação entre professores e alunos, ou das interações dentro de grandes empresas, ou ainda nas complexas relações entre a segurança pública e as populações estigmatizadas, há muito mais que números de estatística para se desvendar, e a etnometodologia pode nos levar a uma maior compreensão da dinâmica que move tais relações. Afinal, a maneira como um policial identifica um suspeito e o interroga, tanto quanto a conversa que se desenvolve no momento em que uma pessoa é atendida num órgão público, podem ser de extrema importância para que se possa compreender melhor as instituições sociais e os seus membros. 

REFERÊNCIAS

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BISPO, Marcelo de Souza. GODOY, Arilda Schmidt. A Etnometodologia enquanto Caminho Teórico-metodológico. RAC. Rio de Janeiro, v. 16, n. 5, p. 684-704, set./out. 2012.
Disponível em:<www.anpad.org.br/rac>. Acesso em 26 mar. 2016.

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GARFINKEL, H. O que é etnometodologia?. Studies in ethnomethodology. Cambridge: Polity Press, 1996 [1967]. Tradução de Actra Traduções. Disponível em:
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_____________ . Studios en Etnometodología. Barcelona: Anthropos, 2006. Tradução coordenada por Maria Clara Castelões, com revisão técnica e texto final de Paulo Cortes Gago e Raul Francisco Magalhães. UFJF, 2015 (Não publicado).

_____________ SACKS, Harvey. Sobre estruturas formais de ações práticas. Tradução de Actra Traduções. Veredas on-line – atemática. Juiz de Fora, fev.2012. Disponível em:
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LAVIE - Laboratório Virtual de Etnometodologia. Disponível em: <http://www.carlosfigueiredo.org/?pag=lavie>. Acesso em: 09 dez. 2015

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

OLIVEIRA, Samir Adamoglu; MONTENEGRO, Ludimilla Meyer. Etnometodologia: desvelando a alquimia da vivência cotidiana. EBAPE.BR. Rio de Janeiro, v. 10, n 1, mar. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cebape/v10n1/09.pdf>. Acesso em: 30∕ jan. 2016

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__________. As regras do jogo e o jogo das regras. In: VOTRE, S. J. (Org.). Representação social do esporte e da atividade física: ensaios introdutórios. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto / INDESP, 1998.



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Conforme regras da ABNT, citar este artigo da seguinte forma:

NUNES, A. I. C. O que é etnometodologia?. Artigos de Filosofia. Cataguases, 19 jun. 2019. Disponível em: www.artigosfilosofia.blogspot.com. Acesso em: (data do acesso).

segunda-feira, 17 de junho de 2019

MARX, DURKHEIM E WEBER: O DESENVOLVIMENTO DO MUNDO MODERNO

Por Ana Idalina Carvalho Nunes* 
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1. Introdução 

           O presente artigo tem como objetivo apresentar o desenvolvimento do mundo moderno a partir do pensamento de Marx, Durkheim e Weber, período em que a sociologia se definiu de maneira mais clara como ciência que possibilitaria a solução dos problemas sociais decorrentes da Revolução Industrial. Visando identificar, tanto a percepção dos três teóricos sobre a modernidade com suas convergências e divergências, quanto as contribuições do pensamento de cada um deles para a compreensão do referido período histórico, o breve estudo pretende apresentar as explicações que cada um deles apresenta sobre as mudanças sociais e o Estado, para, posteriormente, apresentar as convergências e discordâncias entre suas ideias. 

2. A ruptura, segundo Karl Marx 

          Buscando romper com a tradição alemã do Hegelianismo, embora utilize suas ideias como referência, Marx busca, através da clarificação dos totais da sociedade capitalista, denunciar as estruturas e abrir frestas para a transformação social. Por ser anterior a Durkheim e a Weber, ele explica as categorias mais complexas da sociedade, tomando como ponto de partida as categorias mais simples. Sob o paradigma coletivista, ele aponta as possibilidades do tempo presente como decorrentes do que se constatou no passado, ou seja, ele assume que as condições de vida de um grupo de pessoas determinam o seu pensamento e a condição que essas pessoas venham a assumir. E esses grupos formados pelos indivíduos são tratados, na teoria de Marx, como categorias representantes de coletivos, classes sociais. 
          De acordo com ele, o sistema capitalista se divide, na sua estrutura, em duas classes que são identificadas através das relações de propriedade. Aqueles que detêm o capital (propriedade que possibilita a produção de forma geral) integram a classe capitalista. Quanto aos que possuem apenas a própria força de trabalho para vender (força de trabalho considerada como mercadoria), formam a classe operária. Ou seja, 

Duas espécies bem diferentes de possuidores de mercadorias têm de confrontar-se e entrar em contato: de um lado, o proprietário de dinheiro, de meios de produção e de meios de subsistência, empenhado em aumentar a soma de valores que possui, comprando a força de trabalho alheia; e, do outro os trabalhadores livres, vendedores da própria força de trabalho e, portanto, de trabalho. Trabalhadores livres em dois sentidos, porque não são parte direta dos meios de produção (...) e porque não são donos dos meios de produção (...). O processo que cria o sistema capitalista consiste apenas no processo que retira ao trabalhador a propriedade de seus meios de trabalho, um processo que transforma em capital os meios de subsistência e os de produção e converte em assalariados os produtores diretos. A chamada acumulação primitiva é apenas o processo que dissocia o trabalhador dos meios de produção (MARX, 2001, p. 828). 

          Para Marx, o surgimento de uma nova organização social sempre vem de uma sociedade anterior, origina-se da reorganização de outras sociedades anteriores, por meio de rupturas muitas vezes violentas. Tal pensamento leva à ideia de que a sociedade capitalista atual teve sua gênese na feudal e esta em outra sociedade que, investigadas uma a uma, levam à origem de todas as sociedades. 
          Segundo Marx (2001, p. 342), sendo a produção para o consumo próprio a fonte de subsistência dos vassalos de campos da Europa no período feudal, o processo violento de expropriação desses pequenos agricultores, empreendido pelos pré-capitalistas, trouxe a acumulação primitiva de capital. A partir de então, os dois tipos de possuidores de mercadorias citados anteriormente passaram a se tornar imprescindíveis para o desenvolvimento das relações capitalistas de produção. Nasceu, assim, um conjunto novo de relações produtivas e de reprodução da vida humana – numa dinâmica que se apresentava diferente do processo anterior, quando parte da população não acessava alguns privilégios em decorrência de situações que envolviam nascimento e família. Nesse novo paradigma, embora com a permanência da exclusão de uma parte da população no acesso a privilégios, as pessoas já não eram excluídas em decorrência da família, mas tendo como ponto de referência as posses acumuladas em termos de capital. 
            A mercadoria, esse é o elemento principal do sistema capitalista, de acordo com Marx. Para ele, toda mercadoria é detentora de um valor de uso, quando se toma como referência o mercado e o valor de troca. Se é útil e desejada, a mercadoria tem o valor de troca e pode ser permutada por outras mercadorias. As mercadorias fundamentais são a moeda (o capital) e a força de trabalho (no caso dessa última, a mercadoria da permuta é o salário). Através da venda de sua força de trabalho, o trabalhador produz mais valor, o que gera uma contradição fundamental, já que a força de trabalho pode ser comprada por um valor e chegar a produzir (valer) mais valor que o pago inicialmente. É a partir dessa contradição que Marx desenvolveu o seu conceito de mais-valia. Tornando-se generalizada a ideia de que a base da sobrevivência das populações são as relações mercantis, instaura-se e se firma a necessidade de vender e comprar mercadorias. 
          De acordo com Marx, a formação e fortalecimento da classe dos possuidores de terras e capitais na Europa (uma classe pré-capitalista), se deu com base na expulsão de trabalhadores das suas terras – sem ter mais onde trabalhar e gerar o seu sustento, eles passaram a buscar trabalho por toda a Europa. Ou seja, um grande número de pessoas que antes sobrevivia do trabalho em suas próprias terras, passou a ser obrigado a viver da sua força de trabalho. E foi através desse processo de troca, em que a compra da força de trabalho tinha um custo menor do que o valor que gerava, que o lucro passou a ser gerado, bem como a acumulação de capital. Houve o acúmulo do valor produzido por muitos, nas mãos de poucos. 
          E o Estado mostrou-se aliado nesse processo de acumulação, servindo como instrumento de classe, oferecendo financiamentos e participando do processo de exploração do trabalho e de maximização dos lucros nas grandes potências industriais. Todo esse processo econômico gera, de acordo com a avaliação de Marx, a exclusão, a desigualdade e uma injustiça social que, se passar a ser observada mais minuciosamente, pode chegar a gerar uma nova ruptura na história humana. Ele previa ali o nascimento de uma sociedade comunista que surgiria da luta dos trabalhadores, assim como a nova sociedade capitalista nascera da sociedade feudal. Entretanto, ele destaca que, enquanto a primeira “ruptura” foi marcada por uma dinâmica violenta de expropriação de muitos por poucos, nesta nova situação seriam poucos os expropriados pelo grande número de trabalhadores unidos como classe. A partir de então, o Estado, instrumento de dominação, deixaria de ser necessário, passando a se desenvolver dentro da sociedade o individualismo livre do trabalho alienado. 
           Marx coloca, assim, a necessidade da luta pelos direitos e interesses da classe trabalhadora e, para que isso se concretize, ele apresenta a importância da organização em partidos, a partir de sua situação econômica de não possuidores de propriedade. Ou seja, o elemento que constituirá sua identidade enquanto classe é essa ausência de propriedade, que fundamenta a sua necessidade de transformar a sociedade, promover a dita “ruptura”. 
         Marx, diferente de Weber e de Durkheim, para explicar as condições sociais do mundo moderno, aponta sempre a “ruptura” como uma necessidade histórica. E a ciência que ele desenvolve se mostra como preocupada em acabar com a alienação de uma classe, cujo papel é o de se rebelar e transformar as relações sociais de produção. 

3. As ideias de Durkheim 
       
          Importante destacar, já no início desta exposição, a importância da noção de “estrutura” em Durkheim, apresentando o indivíduo como um ser social, mas não organizado em classes sociais, como na teoria de Marx. A noção de estrutura em Durkheim está organizada através dos conceitos-chave de “consciência coletiva” e “representação coletiva” – conceitos que são o ponto de partida para a compreensão da teoria elaborada por ele, em que apresenta as especificidades e as justifica como maneira de validar cientificamente a Sociologia como novo saber que propõe explicar e compreender a sociedade, em contraposição a outras ciências como a psicologia, a filosofia e a economia, por exemplo. 
          De acordo com Durkheim, à medida que a consciência coletiva vai se vinculando à moral (moral aqui entendida como educação ou outras formas de se socializar o ser humano), as representações coletivas passam a se conectar à religião (ao sagrado e profano), às representações e concepções de mundo. Segundo ele, não é pela soma das partes que a representação e a consciência coletiva (fatores estruturais da sociedade) são compostas. Para ele, a representação coletiva não é o resultado da soma de todas as representações individuais; pelo contrário, as representações individuais se constroem a partir das representações coletivas das partes. Assim, a objetivação da sociedade em Durkheim se dá através de um tipo de internalização da consciência coletiva de um determinado grupo social. Não há uma consciência coletiva única, cada grupo social tem a sua própria consciência coletiva que, por sua vez, interferem nas organizações sociais, bem como na maneira individual de seus membros se socializarem entre si. 
          Também no aspecto da divisão do trabalho, Durkheim apresenta ideias que se contrapõem ao pensamento de Marx: para o primeiro, a partir da divisão do trabalho a solidariedade é construída. De acordo com Durkheim, os indivíduos envolvidos no trabalho significam a divisão do trabalho como uma especialização fundamental para que a ordem social se estabeleça e se firme e para que também se instaure a solidariedade orgânica (por consenso). Segundo ele, o único obstáculo que pode impedir a instauração dessa solidariedade é a divisão forçada do trabalho, que traz grande prejuízo para a coesão social. 
          Em sua obra O suicídio, de 1897, Durkheim elabora estudo sociológico em que testa a sua teoria, realizando uma ampla pesquisa quantitativa sobre o suicídio, buscando provar que o suicídio, ou mesmo as razões que levam uma pessoa ao suicídio não são de natureza individual, mas de natureza sociológica. Em seu outro livro, publicado em 1912, As formas elementares da vida religiosa, considerado o seu mais importante livro, Durkheim elabora uma teoria geral da religião partindo de análises centradas nas instituições religiosas mais simples e mais primitivas. Nesse estudo, Durkheim se propõe a fundamentar uma teoria das religiões superiores a partir das formas religiosas primitivas. Utilizando como base o estudo do totemismo, Durkheim prova que a apreensão da essência de um dado fenômeno social pode ser obtida através da observação de suas formas mais elementares. E quando define esse fato social como algo que acontece aleatoriamente à vontade dos indivíduos, Durkheim mostra que é sempre possível identificar algo típico do conjunto, quando se analisa o indivíduo. Para completar todo esse processo, Durkheim utiliza o método Histórico-Comparativo, através do qual torna-se possível encontrar em formações de grupos sociais do passado, os elementos que explicam os fatos do presente. O que Durkheim propõe, através desse método, é identificar fatos sociais que possibilitem uma comparação com o presente, e que dessa comparação surjam explicações que permitam a formação de conceitos sociológicos. 
          No caso específico de suas obras A divisão do Trabalho Social (1982) e O suicídio (2000), existe a busca de conceitos de “sociedade”, que possam ser comparados entre si, numa trajetória que tem na moralidade o seu elemento básico. Desse elemento é que deriva a divisão das sociedades em superiores, mais modernas, ou mesmo em primitivas – de onde Durkheim parte em seus estudos para atingir seus propósitos. Ele define as sociedades primitivas como agrupamentos caracterizados por uma população homogênea de indivíduos, o que faz da vida uma dinâmica formada por tarefas simples, por uma maior consciência coletiva, com a presença de códigos que facilitam a convivência entre os seus integrantes, onde o direito tem o único objetivo de reprimir para a manutenção da ordem. Exemplo desse tipo de sociedade primitiva é a sociedade tribal. 
          Quando analisa o suicídio em sua obra que leva esse título, Durkheim parte da observação dos casos suicidas nas sociedades primitivas como fato social, e busca categorizá-los. Segundo ele, como nessas sociedades existe uma coesão social maior, com negação das individualidades, o suicídio que ocorre mais comumente é aquele que é feito de forma altruísta, ou seja, em que o indivíduo sacrifica a própria vida em prol do bem estar do grupo. Nessas sociedades, o conceito de solidariedade é o que mantém os grupos coesos e, para denominar essa coesão social, Durkheim utiliza o conceito de “Solidariedade Mecânica” , levando em consideração que trata-se de uma solidariedade que se repete automaticamente nesses grupos. 
          Os indivíduos, na verdade, começam   a se diferenciar dentro dos grupos analisados a partir do momento em que se faz presente o desenvolvimento da divisão do trabalho e a distribuição de tarefas, pois, além da diversificação que ocorre no tipo de funções assumidas para o trabalho, também aumenta a variedade de produtos e os indivíduos passam a depender uns dos outros no processo de produção. Diante da divisão do trabalho é que Durkheim afirma que esse desenvolvimento social (como aprofundamento de diferenças e da interdependência entre os que participam do processo produtivo) gera uma transformação moral na coesão dos grupos sociais, e eles deixam de se fundar na “Solidariedade Mecânica”, assumindo um aspecto mais funcional, uma nova moralidade: a “Solidariedade Orgânica”.
          Através do aprofundamento cada vez maior da individuação que decorre da divisão do trabalho, passa a existir a possibilidade de desintegração social e do surgimento de uma sociedade marcada pela anomia social, onde a lei e a ordem são constantemente questionadas e contestadas. De acordo com Durkheim, o próprio Estado passa a ser contestado, quando é atingido um elevado grau de desagregação social, o que poderia levar a uma ruptura no grupo, bem como o fim dos vínculos existentes. Mas ele, em sua análise do desenvolvimento do capitalismo na Europa (séc. XIX a XX), identifica elementos que geram uma esperança: o surgimento das “corporações profissionais”, organizações criadas pelos trabalhadores para a defesa da classe. Essas corporações passam a fazer a mediação moral da desagregação social que se faz presente no período, regulando as formas de desenvolvimento da moralidade dos grupos sociais, possibilitando o restabelecimento do papel do Estado, que passa a ter, nos grupos secundários (das categorias profissionais), o canal  de comunicação para a reagrupação. Dessa forma, Durkheim vai além da transformação pela ruptura, defendendo que, depois dessa ruptura, é possível – através das organizações classistas - um religamento para a manutenção da estrutura, embora com características diferenciadas: com sua coesão interna fundada na formação de novas instituições.

4. O pensamento de Max Weber

           Max Weber traz uma produção intelectual e científica direcionada às análises e interpretações centradas essencialmente na ação. De acordo com sua teoria, a ação das pessoas dentro das sociedades capitalistas se organizam e orientam pelo cálculo racional e pela divisão do trabalho na administração burocrática do Estado. Segundo ele, os indivíduos utilizam uma lógica racional para se orientarem, tendo como objetivo um fim. Entretanto, essa racionalidade legal  não se constitui como forma única de organização social: as sociedades também se organizam sobre a base do carisma e da tradição - tipos puros de dominação que exercem influência sobre o tipo de poder, ao lado do poder legal. Todavia, a racionalidade mais relevante dentro do capitalismo é aquela centrada no poder legal, e isso se dá em razão da tendência à burocratização da sociedade, nas suas várias esferas.
       Weber, assim como Durkheim, construiu seu trabalho em uma situação política, moral, econômica e social especifica que caracterizava tanto a Alemanha quanto a França na segunda metade do século XIX e início do século XX. O objetivo dos dois era superar, não apenas o conservadorismo romântico, mas o utilitarismo da economia clássica. Como Karl Marx nascera em período anterior, viveu a herança do século anterior, com suas transformações. Weber viveu um outro período, permeado pelos conflitos da I Guerra Mundial. Verdade é que a modernidade ganhou grande amadurecimento na época em que viveram Marx, Weber e Durkheim.
            No referente a Weber e Durkheim, vale ressaltar que, embora os dois desenvolvam seus estudos num semelhante período, apresentam abordagens diferentes sobre as questões apresentadas, a começar pela centralização do indivíduo na análise das relações humanas. A partir dessa premissa, Weber explica a formação do social e as suas chances de transformação, considerando essa transformação como um dado do passado, o que justifica seu estudo. Importante frisar a maneira como ele aponta o futuro como um caminho onde a transformação não será mais desejada pelos indivíduos.
           Em sua abordagem da ciência das culturas, Weber traz a discussão sobre a transformação, utilizando uma categoria fundamental para analisar a relação entre indivíduos: trata-se da categoria da Ação Social. As outras categorias definidas por ele são assim apresentadas: 1. Ação tradicional (baseada nos costumes, existente em sociedades nas quais os ritos religiosos estão muito presentes e os elementos mágicos se evidenciam); 2. Ação afetiva (motivada por sentimentos e emoções); 3.Ação racional relativa a valores (corresponde a ações em que as pessoas se importam mais com os meios de realização do que propriamente com os resultados obtidos); 4. Ação racional relativa a fins (ação que, visando atingir determinados objetivos, acaba dando menor importância aos meios como a ação é realizada).
           É válido aqui destacar que uma ação dificilmente se enquadra em um tipo apenas, e que uma ação raramente pode servir de exemplo de perfeição da descrição oferecida – são tipos ideais. No entanto, a partir desses conceitos, torna-se possível trabalhar com a visão de sociedades e identificar dentro delas as formas de comportamento das pessoas, de acordo com os tipos estabelecidos. Através dessa dinâmica, Weber estabelece tipos de sociedades para comparar umas às outras, com a finalidade de localizar, dentro dessas sociedades, os processos de transformação – o que proporciona o estabelecimento da noção de mudança social, em Weber.
           Mais especialmente quando trata da sociedade capitalista moderna, Weber busca apresentar elementos que a distanciam de uma sociedade tradicional. Segundo ele, enquanto na última prevalece o comportamento irracional, através de costumes e da magia, a primeira é marcada pela racionalidade até mesmo burocrática. Em outras palavras, há uma mudança, um processo de racionalização – e esse é o ponto central, através do qual Weber fala da mudança social: a ideia de que, quando as sociedades passam do seu estado de tradicionais para a sua fase de sociedades modernas, os indivíduos se transformam, adotando um tipo de comportamento mais racionalizado que se torna claro em suas ações.
           Weber explica esse processo lançando mão de acontecimentos históricos para identificar um marco que tenha levado as pessoas à superação do tradicionalismo em prol do desenvolvimento de sua racionalidade. Segundo ele, esse grande marco é a Reforma Protestante, através da qual os valores da vocação e da ascese, tanto quanto da ênfase moral e secular dada pela Igreja ao trabalho profano, promovem uma transformação radical na ética que rege os indivíduos dentro da sociedade. Esse momento, para Weber, representa uma grande mudança social. Mas ele não quer dizer, com isso, que não tenham existido outros elementos interagindo nesse processo - como, por exemplo, o desenvolvimento da contabilidade de capital, da constituição da empresa racional unida ao elemento do trabalho livre, com a benção dos valores da Igreja, ali em transformação. Porém, para que seja possível analisar os novos comportamentos surgidos, torna-se necessário lançar mão de um outro elemento, que é a identificação dos tipos de dominação – que aqui equivalem aos tipos de ação, já que, tanto a ação como a dominação estão além da vontade dos indivíduos. Dessa forma, derivando um do outro, os tipos de dominação são os mesmos tipos de ação, ou seja, a dominação tradicional corresponde exatamente à ação tradicional – mesmo quando imposta de maneira inconsciente; a dominação carismática se dá através de lideranças que trabalham o convencimento e a dominação sobre os indivíduos através da confiança que inspiram; e a dominação legal-burocrático-racional é o tipo de dominação imposta pela racionalidade.
           Todavia, é importante frisar que tais tipos de dominação não ocorrem isolados dentro de uma sociedade: os tipos se misturam, ocorrendo apenas uma predominância de um tipo em detrimento de outro. Por exemplo, na passagem da sociedade tradicional para a moderna, é possível perceber o fortalecimento do Estado como elemento que estrutura a nova sociedade e sua racionalidade. De acordo com Weber, até mesmo a democracia pode ser vista como sistema de dominação, já que torna legítimo o papel do Estado. Ou seja, a dominação racional-legal-burocrática cria condições para se manter a ordem social, e esta é estabilizada a partir das decisões racionais dos indivíduos. Contudo, Weber assume que essa racionalidade instituída não aponta soluções para todas as questões sociais, que há conflitos e divergências que o Estado não é capaz de captar. Por assumir essa incapacidade, Weber apresenta a necessidade de haver uma humanização nas decisões de Estado, através do exercício da política, defendendo também o governo exercido também pelos políticos do parlamento. 
          O que se pode observar aqui é que, tanto quanto Durkheim, Weber tece um sistema de relações que torna possível a compreensão de que a sociedade moderna, apesar de suas instabilidades, propicia a continuidade de desenvolvimento, através da manutenção das relações estabelecidas. Mesmo diante de questões problemáticas que requerem solução, Weber defende que é necessário manter o Capitalismo Moderno como o mais adequado sistema para o bem viver.

 5. O objeto sociológico

           Para iniciar este tópico que pretende apresentar o objeto de estudo dos três teóricos, é preciso, primeiramente, deixar claro que a divergência entre Marx, Weber e Durkheim tem início na própria definição do objeto. Para Durkheim, o objeto é o fato social, um elemento que, embora presente, é exterior e coercitivo aos indivíduos, ocorre aleatoriamente à decisão tomada individualmente. Weber, por outro lado, aponta, como objeto a ser analisado, os elementos típicos das relações estabelecidas entre as pessoas e o encadeamento das ações desenvolvidas dentro dessas relações. Ou seja, Weber, diversamente de Durkheim, observa os indivíduos e suas relações para construir os tipos ideais, que são a base para que se possa tomar conhecimento da realidade; uma percepção unilateral que, em confronto com a realidade, torna possível a sua compreensão. Segundo Weber,

 A validade objetiva de todo saber empírico baseia-se única e exclusivamente na ordenação da realidade dada segundo categorias que são subjetivas, no sentido específico de representarem o pressuposto do nosso conhecimento e de associarem, ao pressuposto de que é valiosa, aquela verdade que só o conhecimento empírico nos pode proporcionar (WEBER, 1998: 135).

           Em outras palavras, Weber aponta que a ciência empírica é incapaz de esclarecer, sozinha, as coisas que devem ou podem ser feitas – uma visão da qual Marx se desencontra e se distancia. Marx não se preocupa em definir sociologicamente a sociedade moderna, ele acredita que é preciso transformá-la. De acordo com suas palavras, “os filósofos só interpretaram o mundo; trata-se agora de o mudar” (Marx, 1965), e o objeto da ciência passa a ser a vida humana, bem como a história de sua produção e reprodução.
           Entretanto, na raiz do seu discurso que defende a fundamentação da matéria humana em seu modo de produção, estão as ideias sobre classes sociais. O indivíduo não aparece isolado na obra Marx, qualquer indivíduo será visto como representante de uma classe que ele defende ou renega. Assim, Marx fundamenta seu pensamento nas relações que estabelecem os grupos sociais, onde o sujeito é sempre coletivo. 
          A partir dessa clarificação do objeto em Durkheim, Weber e Marx, torna-se possível discutir, não apenas as divergências existentes na sua visão do mundo moderno, mas também os pontos em que eles concordam entre si.

 6. A mudança social

           Neste tópico será tratada a maneira como os três teóricos percebem o conceito “mudança social”. Com uma visão norteada pela percepção da sociedade como o coletivo que há além da vontade do indivíduo (mesmo sendo formada por ele), Marx e Durkheim explicam o social como conjunto de relações que seguem o coletivo (definido como sociedade ou grupo social). Ou seja, o social é um conjunto e não apenas a união de várias partes, tem regras que são reproduzidas no grupo. A diferença entre a visão dos dois se evidencia na definição das características desse todo.
           Weber, por outro lado, percebe o social como momentâneo, marcado por um caráter de instabilidade, oferecendo ao cientista não mais que umas poucas pistas de sua forma, por meio dos tipos ideais. De acordo com ele,

 a história das ciências da vida social é, e continuará a ser, uma alternância constante entre a tentativa de ordenar teoricamente os fatos mediante uma construção de conceitos e a composição dos quadros mentais assim obtidos, devido a uma ampliação e a um deslocamento do horizonte científico, e à construção de novos conceitos sobre a base assim modificada (WEBER, 1998: 131).

           Ou seja, para Weber não há regras fixas, mas uma teia de relações entre as pessoas e esse conjunto não é formado pelos indivíduos apenas mas, essencialmente, pelas relações estabelecidas entre eles, que se modificam continuamente de acordo com a realidade histórica. Isso proporciona ao método de Weber uma maior profundidade no entendimento das relações analisadas, embora também seja um método com um grau mínimo de previsibilidade em termos do todo do corpo social. Percebe-se que, tanto na visão de Weber quanto na de Durkheim, o papel do sociólogo dentro da sociedade é o de buscar a explicação para os fenômenos, devendo, entretanto, eximir-se de emitir julgamentos. Em suma, o sociólogo deve apenas apresentar conclusões sobre a pesquisa, mas não deve apresentar maiores vinculações., deve se colocar de fora da questão que pesquisa. Nas palavras de Weber, 

Uma ciência empírica não pode ensinar a ninguém o que deve fazer; (…) Somente a partir do pressuposto de fé em valores tem sentido a intenção de defender certos valores publicamente. Porém emitir um juízo sobre a validade de tais valores é assunto da fé, e talvez também seja tarefa de uma consideração e interpretação especulativa da vida e do mundo, no tocante ao seu sentido, mas, certamente, não é tarefa de uma ciência empírica, no sentido como nós entendemos (WEBER, 1998: 86).

          Durkheim igualmente comenta que, a não ser que o pesquisador não tenha usado um método rigoroso para as suas investigações, ele não deve se intimidar com o resultado das suas investigações. De acordo com ele, “Se procurar o paradoxo é próprio do sofista, evitá-lo, quando imposto pelos fatos, é próprio dos espíritos fracos, ou sem fé na ciência” (DURKHEIM, 1998: 29).
           Contrariamente aos dois, Marx, em vez de buscar compreender a sociedade, objetiva descobrir os mecanismos que a mantêm. E, para Marx, essa sociedade também é diferenciada, trata-se da sociedade burguesa organizada pelo modo de produção capitalista. Outra grande diferenciação do pensamento marxista, em relação a Weber e Durkheim é que, para Marx, é impossível que um indivíduo, seja ele cientista ou que exerça qualquer outro papel social, mantenha-se fora na sua função de analisar o contexto onde está inserido. Segundo Marx, todos, sem exceção, estão irremediavelmente dentro desse todo que se reproduz e exerce uma função – ainda que sua função seja não ter função alguma. Para ele, todos, indistintamente, representam interesses e pertencem a algum segmento social. Portanto, todos somos representantes de alguma classe e, sendo assim, a intenção de manter-se isento de opinião, mostrando-se neutro já é, por si só, uma reafirmação da própria posição de classe, pois para desejar manter a neutralidade é preciso que se esteja vinculado a interesses da sociedade dominante e que se tenha noção de que os próprios interesses já estão garantidos. A partir desta compreensão, fica claro que o posicionamento apenas é necessário para indivíduos que têm interesses a defender. Para Marx, tanto aquele que se posiciona quanto o que se mantém neutro, estão, em verdade, tomando uma posição.
            Na comparação entre as ideias de Weber e a posição de Marx, não se deve compreender a posição da neutralidade em Weber como uma posição factível – o que Weber defende é que a posição de neutralidade deve ser sempre almejada pelo pesquisador. Em outras palavras, Weber e Marx concordam com o fato de que a neutralidade não ocorre realmente; o aspecto de discordância reside no ponto seguinte: enquanto Weber recomenda que a neutralidade seja buscada, na visão de Marx, buscar essa neutralidade é partir, em verdade, para a defesa dos interesses da própria burguesia, o que é um tipo de posicionamento.
           Todavia, acima dessa primeira questão que envolve a posição do pesquisador, existem outras que apresentam maior divergência como, por exemplo, em relação à possibilidade de transformação da sociedade. Nessa questão, Weber e Durkheim compreendem que, por mais possível que seja a transformação das relações dentro da sociedade no período atual (ou seja, o período que viviam quando escreveram suas obras), uma mudança não seria algo desejável entre os indivíduos, já que o nível de desenvolvimento das relações, tanto na sociedade moderna de Weber, como na sociedade superior de Durkheim, é visto como extremamente satisfatório pela sociedade, havendo a possibilidade apenas de alguns ajustes para o seu aperfeiçoamento.
           Um ponto a ser ajustado, segundo Durkheim, seria o desenvolvimento do sistema de representação das categorias profissionais por um maior número de corporações. Weber, discordando do posicionamento de Durkheim, aponta como desnecessária uma maior organização de representação das corporações, já que seus interesses mostram-se difusos dentro da sociedade. Weber defende a necessidade de um melhor desenvolvimento dos mecanismos de funcionamento do Estado, com abertura para que a sociedade exerça um controle sobre eles por meio de uma representação política. Ele sinaliza a possibilidade de um Estado melhor estabelecido com o surgimento do Parlamentarismo.
          Marx é o único a apresentar a situação das relações sociais no Estado atual (no contexto de sua obra) como insuficiente para o desenvolvimento do indivíduo. De acordo com ele, para que essa sociedade seja mantida, é necessária a existência de mecanismos perversos como, por exemplo, a própria ciência burguesa. A partir de tais argumentos, Marx aponta a necessidade de o proletariado tomar o poder, a fim de promover a ruptura com as instituições atuais, já que, segundo ele, não é possível fazer uma reforma nesse sistema, pois qualquer reforma será incorporada como melhor meio para a reprodução do capital.
           É possível resumir a concepção de Estado para os três teóricos, dizendo que, para Marx, tal concepção surge a partir da propriedade privada e da divisão social do trabalho, o Estado é quem cria condições necessárias para o desenvolvimento das relações capitalistas, funcionando como uma espécie de comitê executivo das classes dominantes. Durkheim apresenta uma concepção de Estado que, posicionada acima das organizações comunitárias, apresenta-se voltada para a coesão social. De acordo com ele, o Estado tem uma função moral sem fins conceituais ou religiosos, tendo como canal de comunicação a própria imprensa, que teria a função de intermediar a relação entre governantes e governados. Por último, Weber traz uma concepção de Estado relacionada ao controle do poder estatal por uma burocracia militar e civil, ou seja: "Uma relação de homens dominando homens, mediante violência considerada legítima". 

7. Considerações finais 

          Se, por um lado, as influências marxistas recebidas por Weber levaram-no a tornar-se um crítico da teoria de Marx e a deixar um legado relevante que acabou sendo recuperado por sociólogos do século XX, por outro, foi através de Weber que a sociologia se consagrou como disciplina dotada de métodos rigorosos. A partir de Weber, a sociologia deixou de ser usada apenas como uma causa políticareformista ou revolucionária, para ser vista como a disciplina responsável por fazer uma análise científica da sociedade. 
          Quanto ao pensamento marxista, além da grande contribuição que prestou à sociologia contemporânea, vale ressaltar que ele nos deixou uma visão humanista de libertação para o indivíduo que se vê explorado pela dominação política de classe e pelo capitalismo. Ainda que várias predições de Marx não tenham se cumprido, a simpatia que uma classe específica de trabalhadores, intelectuais, acadêmicos e universitários nutrem pelas suas ideias é fato.
           Entretanto,  é relevante também ressaltar que a irracionalidade e a dominação de classe que Marx via no capitalismo, era contrariamente percebida por Weber, que encarava o capitalismo como extremamente racional, principalmente em suas estruturas burocráticas que se ajustavam perfeitamente ao Estado Moderno. Outro aspecto em que a visão marxista difere da weberiana é no referente à luta de classes: enquanto Marx a encara como superação do capitalismo, Weber a percebe como afirmação da burocracia racional, um tipo de teia que prende atores privados e agentes públicos que acaba rompendo com a ideia de oposição política irredutível apresentada por Marx.
          Entre os três teóricos, Durkheim se destacou como o primeiro sociólogo sistemático do século XX: ele criou as bases da sua análise social criteriosamente, de forma que ela se aproximasse do “cientismo” que estava em vigor na academia. Seu livro intitulado “As regras do método sociológico” permanece como leitura obrigatória em todos os cursos de ciências sociais no Brasil e em muitos outros países, influenciando as teorias sociológicas mais modernas, ainda que seja muito mais pelo aspecto da metodologia do que propriamente pelas suas interpretações.
          Com base na exposição desenvolvida, é impossível defender uma das abordagens como a mais válida entre outra. O que se buscou aqui foi apresentar a dialética entre as três correntes sociológicas clássicas e a relação dessas teorias com os pontos de vista que adotaram, reconhecendo a importância desses três teóricos para os estudos que se desenvolve no meio acadêmico do século XXI. 

8. REFERÊNCIAS 

ALMEIDA, Paulo Roberto de. Mestres fundadores da sociologia: Marx, Weber e Durkheim. Disponível em: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2011/11/mestresfundadores-da-sociologia-marx.html#sthash.TC1Lip03.dpuf. Consultado em: 30/06/2015 

DURKHEIM, Émile As regras do método sociológico. In: OLIVEIRA, Paulo de Salles (org). Metodologia das Ciências Humanas, São Paulo: Hucitec, 1998

___________ As formas elementares da vida religiosa.: São Paulo: Martins Fontes, 2000. 

___________ A Divisão do Trabalho Social . In Coleção: Os Pensadores (Livro II). São Paulo: Abril Cultural, 1982 

___________ O suicídio: estudo de Sociologia. Trad. Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 

FLORENZANO, Modesto. Sobre as origens e o desenvolvimento do Estado moderno no ocidente. In: Lua Nova: Revista de Cultura e Política, ed. 71, pág. 11- 39. São Paulo, 2007 

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Civilização Brasileira, 2001. Livro I. (18ª ed.). 

____________ A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Ed. Global, 1965 

QUINTANEIRO, Tania et all. Um toque de clássicos: Marx, Durkheim e Weber. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002. 2ª ed. 

WEBER, Max . A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Ed. Contexto, 1985 

OLIVEIRA, Paulo de Salles (org.) A objetividade do conhecimento na ciência social e na política. In Metodologia das Ciências Humanas. São Paulo : Hucitec/UNESP, 1998. 219p. (Coleção Paideia).

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NUNES, A. I, C. Marx, Durkheim e Weber: o desenvolvimento do mundo moderno. Disponível  em: https://estudosobreocarcere.wixsite.com/idalinacnunes/publicacoes. Acesso em: ....


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* Ana Idalina Carvalho Nunes é mestra em Ciências Sociais (UFJF, 2017), especialista em Filosofia, Cultura e Sociedade (UFJF, 2014), licenciada e bacharela em Filosofia (UFJF, 2012). Escritora  com cinco livros publicados,  professora de filosofia. Acesse o lattes:   http://lattes.cnpq.br/6505495497583167


ANTROPOLOGIA - SOBRE A OBRA "OS RITOS DE PASSAGEM", DE ARNOLD VAN GENNEP

Foto de 1920. Autor desconhecido.  Fonte:    http://www. intermedi a. uio.no/ariadne/Kulturhistorie/bilder/arnold-van-gennep        ...