CARL GUSTAV JUNG

A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

Por Ana Idalina Carvalho Nunes

[Resumo da Conferência proferida por Jung, sob o título de “Die Stimme des Innerem”
(“A voz do íntimo”) no Kulturbund, Viena, em novembro de 1932. Como tratado
Vom Werden der Persönlichkeit” (“Da formação da personalidade”) em
“Wirklichkeit der Seele” (“Realidade da alma”), Rascher, Zurique 1934.
Novas edições: 1939 e 1947. Nova edição (cartonada): 1969] 

            O tema “formação da personalidade” tem sido foco na área da educação nos tempos atuais mas, na maioria dos casos, é uma proposta que cai no vazio, diante da impossibilidade de se “ensinar personalidade” às crianças, já que os pais e educadores também não têm desenvolvida sua personalidade. A pedagogia desconsidera o fato de que, sendo a personalidade uma “totalidade psíquica, dotada de decisão, resistência e força”, deve-se constatar que é um ideal de pessoa adulta, impossível de existir na infância. É claro que a personalidade existe na criança, mas é uma semente que se desenvolve ao longo da vida e não há sequer uma forma do educador ter certeza da maneira como a personalidade vai aflorar, podendo a criança tanto se transformar em uma pessoa brilhante que promova o bem da humanidade, como também se transformar em um monstro. É impossível fazer uma previsão exata, o que leva à afirmação de que “a personalidade é ao mesmo tempo um carisma e uma maldição”.

Sendo impossível encontrar na idade infantil tais características, é fácil concluir que acreditar que a criança pudesse ser dotada de uma personalidade desenvolvida seria crer que seria viável transformar a criança numa imitação de adulto, desnatural e precoce. Personalidade é o resultado de uma vida de máxima coragem de entrega, afirmação absoluta do ser individual, é o produto da adaptação a tudo que existe no universo, além de grande liberdade de decidir por si próprio. Será que os pais e educadores atingem esse ideal de personalidade? A grande maioria não, o que infere que também grande parte dos educadores não está preparada para formar a personalidade de crianças. Os métodos pedagógicos tolos que muitos deles aplicam prova que não estão preparados para formar personalidade de crianças.

Quando se fala em educação para a personalidade, o alvo são as crianças, mas deveria se falar na criança que existe no adulto. O homem do século XXI continua perdido em meio à grande coletividade e ainda não superou as consequências da educação massificadora que recebeu. Ele sabe o quão longe está de ter uma personalidade e, sentindo-se incapaz de agir sobre si mesmo, entusiasma-se com a psicologia e educação infantis. O que ele ignora, entretanto, é não conseguirá corrigir nos filhos ou alunos, os erros que ele mesmo comete. E por conta dessa tentativa frustrada de oferecer aos filhos a educação que gostariam de ter recebido, muitas vezes os pais pecam, tornando-se permissivos e negando aos filhos os limites saudáveis na educação, principalmente quando reclamam terem sido educados com serveridade excessiva. Acreditando terem superado as impressões ruins causadas por uma educação errada, eles erram utilizando um extremo desta educação, desconsiderando o quão perigosos são os extremos. O que podemos ver mais comumente são pais se sacrificando para oferecer aos filhos aquilo que eles queriam para si mesmos, desconsiderando o que os filhos querem para eles próprios. Os pais acreditam saber o que é melhor para os filhos, mas esse melhor é contextualizado nos sonhos que os pais tinham para si mesmos.

Assim, como pode um adulto educar para a personalidade, se ele próprio não tem personalidade? Levando em conta este questionamento é que defendemos a tese de que a educação para a personalidade deve começar pelos educadores. 

O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE NA 
PESSOA ADULTA
Em primeiro lugar, vale ressaltar que a personalidade não pode ser desenvolvida através de um convite ou mesmo porque se recebeu uma ordem. Se não houver uma grande necessidade, se não for obrigada a desenvolver-se, nada acontece, mesmo porque é muito mais cômodo seguir regras e viver comodamente, do que despertar para a necessidade de mudar a própria direção e tomar um novo caminho. Necessidade, escolha do caminho e designação – eis os três passos para se ouvir a voz interior, para despertar a personalidade e deixar nascer um líder, um herói, uma pessoa iluminada (ou até mesmo uma personalidade cruel e destruidora). Apenas quando se passa por uma grande dificuldade é que se pensa em escolher um novo caminho. E, para a escolha desse caminho é imprescindível ouvir a voz interior, que dita as leis que se deve obedecer.

Se a pessoa tiver alguma dúvida de que o caminho que escolheu é o melhor, ela pode acabar se perdendo em outros caminhos marcados pelas convenções (sociais, morais, religiosas, políticas, filosóficas etc.) e, ao invés de seguir o caminho que sua própria lei ditou, seguir as convenções, o caminho coletivo que outros escolheram por ela, passando a seguir um método coletivo, o que causa enorme prejuízo à sua personalidade. E não se pode acusar a grande maioria que abre mão do grande presente que é o desenvolvimento da própria personalidade, para seguir um caminho mais fácil. O desenvolvimento da personalidade é atemorizante por conta de suas consequências, a começar pelo isolamento. Quando uma pessoa se destaca da grande massa e começa a pensar por si próprio, a agir pela própria lei, é considerada louca, não consegue se fazer entender pelos outros, é ignorada. Isso porque a grande maioria tem seus pensamentos sufocados por uma barreira fortíssima de preconceitos, o que os impede de enxergar a vida e avaliá-la por si mesmos. Os que ficam presos à coletividade não conseguem compreender como alguém pode escolher um caminho estreito e íngreme sem a certeza de onde poderá chegar, quando é possível caminhar por uma estrada larga e livre de imprevistos, na qual se pode ver claramente o destino. O homem massificado não precisa pensar: ele adere ao pensamento coletivo. E rejeita tudo o que pode tirá-lo da estagnação em que se encontra, encontra respostas que expliquem todas as suas poucas dúvidas, mascarando a personalidade incômoda – tentando matar o demônio que insiste em mostrar o que ele, definitivamente, não quer ver. Quem se perde em meio à coletividade imagina viver confortavelmente, mas perde o sentido da própria vida, vivendo o sentido grupal. 

“O desenvolvimento da personalidade é um bem tão precioso, que se deve pagar um alto preço por ele”. Os grandes nomes da história viveram livres das convenções, livraram-se delas, escolhendo ouvir a própria voz interior, desapegando-se de tudo o que é coletivo: dos medos, convicções, leis e métodos. Podemos chamá-los de “iluminados”, os que nunca foram esquecidos, os “heróis lendários da humanidade, os admirados, os queridos, os adorados, os verdadeiros filhos de Deus, cujos nomes não desaparecem nos períodos infindáveis do tempo”. Cada uma dessas personalidades tem relato de um momento que foi crucial em suas vidas, em que foram movidos or uma voz, um chamado interior que os levou a escolher um caminho e a segui-lo fielmente, sem ceder ao cansaço ou ao desânimo. A essa voz interior, a sociedade costuma chamar demônio ou deus interior, que ordena a pessoa a fazer tal ou qual coisa. O homem que tem designação obedece à sua própria lei, como se um demônio lhe insuflasse caminhos novos e estranhos. Quem tem designação escuta a voz do seu íntimo, está designado.

A personalidade age na pessoa da mesma maneira que um grande líder atua na sociedade. Salvando, modificando e curando. É como se a pessoa não designada fosse um rio perdido em seus braços secundários e pantanosos, ou então como se fosse uma semente germinando embaixo de uma pedra. A designação, ou iluminação, em suma, o desabrochar da personalidade age sobre a pessoa da mesma forma que sobre o rio que, repentinamente, descobrisse seu verdadeiro leito; ou como a semente germinada que, como por milagre, se visse livre da pedra que impedia seu crescimento normal.Ouvir a voz interior é abrir-se para uma vida plena, para uma consciência ampla e abrangente. O desabrochar da personalidade corresponde a um aumento de consciência, a uma “iluminação”. A voz interior apresenta aquilo que é visto como “o mal” para as pessoas comuns (a personalidade) de maneira tentadora e convincente, com a finalidade de convencer a pessoa a ceder a esse mal. Se a pessoa não cede e não assume esse mal, nada desse mal penetra nela. Em contrapartida, morre qualquer possibilidade de mudança, renovação ou cura dos problemas de que padece a sociedade da qual faz parte. Se a pessoa cede apenas em parte, ela não muda radicalmente, não promove uma grande tempestade, mas ainda assim a situação é produtiva, já que ela consegue enxergar claramente o que acontece e, a partir daí, tem a possibilidade de adaptar o seu cotidiano às leis próprias e desvincular-se parcialmente da massa. No entanto, se a pessoa se atemoriza e foge do mal, ela se perde em meio à multidão, perdendo sua identidade e assumindo a personalidade coletiva, passando a agir conforme os grupos, a sentir o que sente a grande massa. Mas não se pode condenar a grande maioria das pessoas por agirem de tal forma, já que o que é melhor pode mesmo parecer um mal, quando as pessoas já possuem o que é bom. E para que algo melhor acontece, uma coisa boa tem que ter fim e ceder o lugar a essa coisa destinada a ser algo de melhor – que dará a impressão de ser algo muito mau, pelo menos à primeira vista. Mas o fato de o melhor parecer mau inicialmente, não quer dizer que o mal não possa se intrometer nessas questões, sob a alegação de ser o melhor – o que torna esse terreno cheio de armadilhas escondidas, escorregadio e perigoso, como a própria vida é.

A PERSONALIDADE, ENFIM, O QUE É?
Partir para a conquista da personalidade, jogar-se nesta aventura em que o prêmio é a plenitude, a iluminação, é, sem dúvida alguma, o maior dos riscos. O demônio da voz interior é, a um mesmo tempo, o perigo máximo e o auxílio indispensável. Por sabermos tudo isso, não podemos condenar aqueles que se negam a pensar por si mesmos, a seguir a própria lei, a obedecer obstinadamente à sua voz interior, tornando-se os grandes líderes, heróis, seres iluminados de que a humanidade tanto precisa. Tampouco devemos criticar os pais e educadores que, temerosos do desconhecido que reside por trás da personalidade de cada um, tentam proteger seu rebanho, recomendando que escolham caminhos mais fáceis, que evitem os abismos, que contrariem as leis e regras sociais, enfim, educadores e pais que preferem ver suas crianças crescerem presas às convenções do que correrem o risco de serem plenas e pensarem por si próprias. Talvez para formar a personalidade seja, depois da urgência de desenvolver um trabalho árduo com pais e educadores, aprender e ensinar a aceitar as diferenças, desmontar o estereótipo de “mal” que paira sobre o desconhecido. Talvez seja preciso aprender a deixar que a curiosidade natural da criança não seja limitada com frases do tipo: “Você vai cair”, “Você vai se machucar”, “É perigoso”, “Você não vai conseguir”. Aprender com a criança a sermos mais ousados e destemidos diante do novo.

Contudo, recomendando que as crianças encontrem um caminho que se desvie de abismos, um caminho diferente, os pais e educadores não poderão impedir que seus educandos se coloquem à frente da grande multidão e que partam para a busca de um caminho mais alto e seguro, segundo sua própria lei. E aí, o jovem estará ouvindo sua voz interior e permitindo que ela comande a sua ação. E, nesse caso, ainda que coloquem uma pedra em cima da semente que germina, ela segue sua missão e encontra um caminho para a luz. E o caminho que precisa ser descoberto é como algo psiquicamente vivo, que a filosofia clássica chinesa denomina TAO. “É comparado a um curso de água que se movimenta inexoravelmente para a meta final”. “Estar dentro do TAO significa perfeição, totalidade, desígnio cumprido, começo e fim”. PERSONALIDADE É TAO.





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