DIÁLOGO DE FORMATURA, OU SOBRE DÚVIDAS DE UMA COLAÇÃO DE GRAU

Por Ivan Bilheiro*

Caminhando pela ágora juizforana, o campus da UFJF, deparei-me com Sócrates (!): 
IVAN: Sócrates! Devo aos deuses a sorte deste encontro. Não sabes, naturalmente, mas há tempos por aí eu o buscava.
SÓCRATES: Não estava por aqui, por isso não me encontravas. Chegaste há tempos a esta casa?
IVAN: Sim. Estudo aqui. E ainda hoje irei ao Cine-Theatro Central, para a colação de grau. Estarei entre aqueles que se formarão em Filosofia.
SÓCRATES: Uma formatura em Filosofia?
IVAN: Sim.
SÓCRATES: Tempos estranhos são esses. Haverá uma cerimônia?
IVAN: Por Zeus que sim, Sócrates. Comemoraremos com os colegas esta etapa vencida.
SÓCRATES: E o que comemorarão?
IVAN: A conclusão de nossos estudos em Filosofia.
SÓCRATES: Falas de uma conclusão. Fale-me sobre isso.
IVAN: Depois de alguns anos dedicando-nos às leituras, às discussões e seminários, teremos, por fim, o reconhecimento dos esforços com a entrega de um diploma.
SÓCRATES: Os filósofos de hoje recebem diplomas?
IVAN: Não os filósofos, ó Sócrates. Estes são reconhecidos por suas reflexões. Os estudantes de Filosofia recebem diplomas.
SÓCRATES: E o que fazem os estudantes de Filosofia?
IVAN: Justamente, dedicam-se às reflexões daqueles verdadeiramente filósofos.
SÓCRATES: E conseguem ler tudo o que estes filósofos produziram?
IVAN: Isto seria impossível, Sócrates.
SÓCRATES: Então, se não entram em contato com todas as obras, ao menos com parte delas?
IVAN: Exatamente.
SÓCRATES: Se não fazem a leitura de todas as obras da Filosofia, mas somente parte delas, então dedicam-se a alguns fragmentos da Filosofia. Concordas?
IVAN: Não poderia negá-lo.
SÓCRATES: E o que é um fragmento, se não uma parte menor de um todo?
IVAN: É o que define o fragmento.
SÓCRATES: Estudando fragmentos, estudam partes, não chegam a compreender o todo. É o que fazem estes chamados estudantes de Filosofia?
IVAN: Eu o disse anteriormente.
SÓCRATES: Assim, não chegaram a compreender toda a Filosofia, mas iniciaram sua caminhada por ela.
IVAN: De pleno acordo, Sócrates. Só alguns fragmentos deste caminho é o que conquistamos.
SÓCRATES: Mas são estudantes. E o que fazem os estudantes?
IVAN: Creio que investigam, que se debruçam sobre as leituras, que buscam o saber, que lidam com as dúvidas e as usam como motor de seu trabalho.
SÓCRATES: Buscam conhecer, porque não conhecem ainda. É isso?
IVAN: Resumiste bem, Sócrates. É isso.
SÓCRATES: E estes estudantes estarão em festa hoje, porque serão diplomados?
IVAN: Acredito que sim.
SÓCRATES: Não sou deste tempo. Busco entendê-lo. Nada sei sobre a questão, mas investigo contigo, jovem. Dizias-me que tu e teus colegas são iniciantes na Filosofia, e que tomaram contato com uns poucos fragmentos desta grande área. Não era isso?
IVAN: Parece-me que sim.
SÓCRATES: Ainda afirmavas, há pouco, que os estudantes são aqueles que buscam conhecer, pois não conhecem. Na verdade, reconhecem sua ignorância, mas se dedicam no esforço de conhecer.
IVAN: Isto sim, Sócrates!
SÓCRATES: E os estudantes de Filosofia, enfim, que são eles? Seriam eles iniciantes de um caminho de dúvidas, já que começaram a trilhar uma área que pouco conhecem?
IVAN: Não compreendo bem o que dizes.
SÓCRATES: Pelas definições até então dadas, estes jovens com quem estarás hoje serão reconhecidos por seus esforços de dedicação à Filosofia.
IVAN: Serão sim.
SÓCRATES: E os esforços foram de estudo, o que é o buscar conhecer, ainda sem conhecer.
IVAN: É isso.
SÓCRATES: Estudaram o que pouco conhecem, porque reconhecestes que a Filosofia só foi fragmentariamente abordada por eles, certo?
IVAN: Não posso negá-lo.
SÓCRATES: Se estudam porque não conhecem, e ligam-se a uma área que pouco oferece de certezas, então angariaram mais coisas a investigar que conhecimentos.
IVAN: É este o cenário.
SÓCRATES: E a essa conquistas darão um certificado?
IVAN: É o que farão.
SÓCRATES: Serão diplomados por enveredarem por dúvidas?
IVAN: Parece que sim.
SÓCRATES: E o que comemorarão, então?
IVAN: Por Zeus, Sócrates! Já não sei mais o que comemoraremos!

* Ivan Bilheiro é licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), instituição na qual cursa a licenciatura na área. Especialista em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF) e pós-graduando em Ciência da Religião pela UFJF.
 

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